Você sabe que mudanças são estressantes e que coragem é uma virtude fundamental para encará-las.

De acordo com o professor Yuval Harari, o único modo para os humanos permanecerem no jogo será o de continuarem aprendendo e mudando, reinventando a si mesmos, de novo e de novo.

As pessoas devem considerar normal o desconhecimento, o caos e o fracasso, sem perder o equilíbrio mental.

Sempre senti certa culpa e angústia em relação aos caminhos que percorri em minha trajetória profissional.

Costumo denominar meu perfil do Linkedin de “Frankenstein”.

Bolsista de jogos matemáticos, estagiária no Fórum, designer gráfico, cuidadora de velhinho, diarista, auxiliar de cozinha, atendente de cartório, empreendedora de doces saudáveis, técnica de informática e, daqui algumas semanas, técnica administrativo na Universidade onde estudei.

No futuro, outra coisa (se Deus quiser).

Pulei muito de galho em galho (como você pôde notar). 

Sofri com a falta de clareza e foco.

Atualmente, tento ressignificar esse processo todo.

E uma experiência recente colaborou significativamente para esta intenção.

Desejo compartilhar ela com você, leitor.

Dispus-me a fazer um extra num sábado e domingo.

Motivo: desespero econômico. 

Função: auxiliar de limpeza (e otras cositas más – quem sabe, sabe).

Onde: cozinha de um restaurante.

Evento: Almoço. Buffet.

Horário: 07:30 às 16:00.

Informações: eu não conhecia o Chef, não conhecia a equipe e nem o cardápio. 

Motivação: uma boa quantia por dois dias intensos de trabalho.

Pela pouca experiência que tive em situações semelhantes, sabia que seria bastante puxado para mim, física e mentalmente.

Foco total.

MUITA coisa para fazer.

MUITA mesmo (a ênfase não é exagero, acredite).

Corrida contra o tempo.

Agilidade é fundamental.

Organização, manejo de estresse, lidar com imprevistos etc. 

Um habitat deveras agitado para uma introvertida que gosta de fazer uma coisa de cada vez e com calma. 

Nos dias que antecederam o evento, eu comecei a me sentir ansiosa.

Sexta-feira foi o pico.

Passou pela minha cabeça desistir na última hora.

Mandar mensagem dizendo que não poderia mais ir.

Um alívio à custa de culpa.

Desmarcar na véspera sem deixar alguém no meu lugar… eu precisando do dinheiro… 

“Ansiedade, precisamos conversar! Entendo você, sério. Porém, não posso cancelar agora. Não por medo. Estou sofrendo hoje com dificuldades e coisas ruins que podem ou não acontecer só amanhã. Preciso dormir, descansar bem para conseguir acordar disposta amanhã cedo”.

Aos poucos, me acalmei.

Consegui ter uma boa noite de sono.

Encarei o frio, de bicicleta, às 06:50 da manhã num sábado.

Chegando lá, não só eu, TODOS tivemos dificuldades durante o trabalho.

Obstáculos surgiram e prejudicaram MUITO o que estava previsto.

Coisas que fugiram do controle da equipe.

Foi quando me surpreendi.

Eu estava com pessoas experientes, resilientes, corajosas e esperançosas.

Sorte a minha porque senão eu tinha chances de sair de lá correndo e chorando (risos).

Eis algumas frases que ouvi durante o dia de trabalho: 

“Na vida, a gente veio para fazer duas coisas: aprender e ensinar. Vamos dançar conforme a música. Não adianta se estressar. Nós vamos dar um jeito. Faremos o que for preciso. Vai dar tudo certo!”

Com muito esforço – e alguns erros – cumprimos nosso papel.

Meus sinceros agradecimentos aos que estiveram lá.

Entregamos o nosso melhor em circunstâncias para lá de adversas.

Fui dormir umas 19:00 naquele sábado.

Afinal, domingo teria mais.

Resumindo: encarei o desafio e valeu a pena.

O dinheiro que ganhei era exatamente o que eu precisava para pagar minha pós graduação.

Sim, a lógica utilitarista.

O fazer algo, não por si só, mas por ser o meio necessário para conseguir outra coisa.

Quantos de nós fazemos isso? 

E com que frequência?

No entanto, para além do dinheiro, também ganhei outras coisas.

Coisas que não têm preço.

Uma conversa séria com a minha ansiedade; um diálogo necessário com as minhas dificuldades e erros; um encontro agradável com a minha coragem e um contato inesquecível com pessoas inspiradoras.

Sem contar o enorme prazer que senti ao comer, pela primeira vez, uma feijoada vegana!

Consigo afirmar, meu caro, valeu a pena.

Sacrifícios que têm uma razão de ser.

E você, já parou para pensar quais as razões que te motivam a encarar desafios utilitaristas?

Grata pela leitura,

* Tati(ane) Fonseca é amiga da Filosofia, estudante de Mindfulness, Neurociência, Psicologia Positiva e praticante de Yoga.