retalhos helenísticos

Hoje te convido a um passeio histórico e filosófico pelo mundo antigo depois que Alexandre, o grande, fez uma reviravolta no espírito grego.

Por que raios isso é importante, Tati? (excelente pergunta, inclusive).

Olha, o pensamento deste período é bem legal, mantém sentido e aplicabilidade até os dias de hoje! (você verá).

Se ainda não te contaram, eu vou: o novo nem sempre é melhor ou superou o passado que o antecedeu.

Questões super importantes, feitas antes de Cristo, permanecem vivas e ainda dão muito pano pra manga.

Vida, morte, liberdade, escravidão, ética, política, felicidade, sofrimento e por aí vaí.

O período helenístico surgiu depois que Alexandre expandiu a cultura grega (helênica) para outros povos e culturas (ocidental, europeia, asiática e oriental).

A democracia, a liberdade e a autonomia da pólis grega foram perdendo suas forças, pois Alexandre foi instaurando uma espécie de monarquia universal.

Antes, o homem (poucos homens, aliás) exercia o papel de cidadão ativo, com voz, poder e participação intensa nas decisões coletivas. Seus interesses eram os interesses da pólis e vice e versa.

A partir das monarquias helenísticas, no entanto, o homem passou a assumir mais o papel de súdito que de cidadão.

Junto com o cidadão, também foi embora a força moral que a ética clássica possuía.

Houve um distanciamento do homem e da política, da ética e da política, sobretudo depois que a Grécia se tornou província romana.

Nasce então a noção de indivíduo, um homem distante do poder coletivo, que precisa buscar sua nova identidade no cosmos.

Cada um tornou-se responsável por forjar, a seu modo, a própria vida e a própria moral.

As escolas filosóficas desse período apresentam modelos de vida para este indivíduo que está livre, diante de si mesmo.

As principais escolas e seus respectivos representantes foram: cinismo (Diógenes), epicurismo (Epicuro), estoicismo (Zenão), neo-estoicismo (Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio) e ceticismo (Pirro).

Não irei aprofundar todas neste texto, mas irei abordar os principais temas sobre os quais elas se debruçaram e que são muito importantes e úteis para nós, contemporâneos (desamparados tanto quanto os gregos “after pólis”).

Respire fundo, continue comigo e aperte seus cintos, caro leitor!

Vida: Epicuro ganha destaque neste ponto, pois para ele, a vida é o verdadeiro bem. Foi ele que, mesmo à beira da morte, sentindo fortes dores, afirmou que a vida é doce e feliz. O amor dele à vida, independente das adversidades que surgirem não está, por exemplo, no estoico Zenão que, passando por momentos difíceis, de grande dor também, desejava a morte, com entusiasmo.

Mudança: para Marco Aurélio, o mundo é mudança e a vida, opinião. Tudo que vemos deixará de existir dentro de instantes. Por isso, não devemos nos assustar com as mudanças, nenhuma ação útil pode ser realizada sem transformação. As mudanças em nós são fatos semelhantes e necessários à natureza universal. Para Sêneca, nada acontece ao sábio contra a sua expectativa. Ele sabe que mesmo preparado, a sorte pode impedi-lo de agir. Prometer o sucesso antecipadamente e com segurança dói muito mais quando deixamos de considerar a possibilidade do fracasso. Há sempre uma (boa) parcela de coisas das quais não temos controle algum (e falaremos mais sobre isso adiante).

Felicidade: o cínico Diógenes procurava o homem feliz. Para ele, o homem feliz é fiel a si mesmo, tão somente (autarquia). O homem feliz jamais se preocuparia com a exterioridade, com a aparência e nem com os valores impostos pela sociedade (apatia). Autarquia e apatia são conceitos também presentes no Epicurismo, que acrescenta a ataraxia: paz de espírito, conquistada pelo silêncio em si mesmo e pela força interior. O homem feliz é aquele cuja alma não se deixa perturbar. Para Zenão, felicidade é conservar a vida, mantendo um estilo saudável, fazer o que faz bem para nós e fugir daquilo que pode nos prejudicar.

Autarquia: aquele que depende de nada e nem de ninguém para ser feliz. A sua felicidade vem dele mesmo, das coisas que ele tem e do que ele é.

Apatia: indiferença por tudo o que acontece. Não sofrer e não se importar com nada que vem de fora.

Liberdade: livre, para Diógenes, é quem eliminou as necessidades supérfluas. Ele mesmo andava apenas com uma manta para se cobrir, uma sacola para carregar comida e abrigava-se num barril para dormir. Veja, o minimalismo nível avançado já começou nessa época (risos).

Destino: Zenão acreditava que tudo acontece porque tem que acontecer. Existe uma corda amarrada em nós e um carro que nos puxa (o destino). “O destino guia quem o aceita e arrasta quem o rejeita”. A liberdade aqui consiste em aceitar os acontecimentos para sofrer menos. Epiteto preceitua um dos mais importantes princípios do estoicismo: algumas coisas estão sob nosso controle e outras não. As circunstâncias não ocorrem para atender às nossas expectativas. Os fatos acontecem como têm de acontecer. Quando algo acontece, a única coisa que está em seu poder é sua atitude com relação ao fato. Suas alternativas são a aceitação ou o ressentimento. O que realmente nos assusta e desanima não são os acontecimentos externos em si, mas a maneira como pensamos a respeito deles. As coisas não nos perturbam, mas a forma como interpretamos seus significados, sim. Marco Aurélio afirma que as coisas não atingem a alma; os embaraços vêm exclusivamente dos pensamentos de dentro.

Escravidão: Zenão entendia que ninguém é melhor que ninguém. Todos que querem podem se desenvolver, tornando-se pessoas boas e inteligentes. O verdadeiro escravo é o ignorante, que se destrói porque não sabe ver as coisas que lhe fazem mal.

Dor e sofrimento: se a dor, o mal é pouco, suporta; se é forte, passa rápido; se for insuportável, fica tranquilo, pois logo vem a morte e você sentirá mais nada. Eis o conselho de Epicuro (não sei você, mas apesar de mórbido, é bom demais e até me faz rir). Para Sêneca, há perigo de todos os tipos ao nosso redor. Por que nos espantamos quando tais fatos acontecem conosco? Aquilo que pode ferir a um, pode ferir a todos. Epiteto diz para preservarmo-nos da dor causada pelos falsos apegos e estragos evitáveis, em suma, das coisas que não dependem de nós. As dificuldades, para ele, são oportunidades para olharmos para dentro de nós e buscarmos recursos que podem estar escondidos ou são desconhecidos. Isso nos tornará mais fortes e teremos mais chances de encarar melhor as dificuldades que estão por vir.

Autocontrole: Epiteto diz que se alguém o irrita, a única coisa capaz de irritá-lo, na verdade, é a sua própria reação. É sua própria avaliação do incidente que causa essa sensação. Isso explica porque uma mesma situação ou pessoa pode nos irritar num dia e no outro (quando estamos com melhor humor, por exemplo) passar quase que despercebida. Sob forte emoção, Epiteto recomenda não reagirmos no momento. “Afaste-se, amplie a visão e recomponha-se”. Devemos evitar agir por impulso ou arriscadamente. Aprenda a esperar e avaliar, em vez de sempre reagir a instintos não disciplinados. Aprenda a pensar antes de falar, nem tudo que é pensado precisa ser materializado em palavras. Quando alguém o criticar, não perca tempo se defendendo ou se explicando. Sorria e diga: “acho que essa pessoa não conhece todos os meus outros defeitos, ou não teria mencionado somente esses”.

Prazeres: para Diógenes, a vida tem que ser dura e desconfortável para nos tornarmos fortes e resistentes. Só precisamos do básico para sobreviver, nada mais. Os prazeres enfraquecem a alma e devem ser evitados, sempre. Epicuro, por outro lado, não sustenta essa aversão extrema ao prazer. Para ele, existem três tipos de prazer: naturais e necessários; naturais, mas não necessários; não naturais e não necessários. O primeiro grupo deve ser buscado, um exemplo seria o prazer de comer. O segundo pode ser buscado, mas com muita cautela, só de vez em quando: comer algo mais refinado e gostoso. O terceiro jamais deve ser buscado, pois nasce das vãs opiniões dos homens: a fama, a riqueza, o poder e a honra, por exemplo (engraçado como justamente esses prazeres parecem ser os mais buscados e necessários atualmente, concorda?). A riqueza, para Sêneca, é a principal fonte das misérias dos homens; segundo ele, mais sofre aquele que a teve e perdeu do que aquele que nunca a possuiu.

Virtude: Sêneca defendia a virtude como aquilo que há de mais sublime e elevado, em detrimento do prazer, que só causa sofrimento desnecessário; que representa o fracasso do homem inconsciente e aquilo que o leva à escravidão e infelicidade. A virtude é o necessário, o vício é o supérfluo. O virtuoso encontra serenidade estável e alegria profunda. O virtuoso é livre, pois a nada está acorrentado ou apegado.

Vícios: o imperador Marco Aurélio afirma que os homens não são voluntariamente viciados ou ruins, são assim porque ignoram as consequências de seus atos e as causas da sua natureza viciada.

Morte: com a morte, não sentimos nada, dirá Epicuro. Tudo some, a consciência, os pensamentos e sentimentos. Só teme a morte quem não sabe o que ela é. Marco Aurélio sugere que em todos os nossos atos, ditos e pensamentos, devemos proceder como se houvéssemos de deixar a vida dentro de pouco. “Não procedas como se houvesse de durar dez milênios; o fim inevitável pende sobre ti; enquanto vives, enquanto podes, torna-te um bom”. A morte, continua ele, ou é a ausência de sentidos ou é sentir de outra maneira e continuar vivendo. Em ambos os casos, não há o que temer.

Sociedade: Epicuro tinha aversão à sociedade, sua escola era num prédio com jardim, afastado da cidade, no silêncio do campo. Para ele, a natureza do homem não foi feita para viver em sociedade, muito pelo contrário, a sociedade impede a felicidade. Quanto maior a convivência, mais irritação, mais briga e discussão. Ocupações cotidianas e políticas deviam ser evitadas. Para Zenão, por outro lado, o homem não nasceu para viver isolado. O nosso amor por nós mesmos se estende para as pessoas mais próximas. Sentimos a necessidade natural de nos unir às outras pessoas. Somos animais comunitários, devemos conviver com todos os homens, de todos os lugares.

Solidão e silêncio: “retira-te para dentro de ti mesmo, sobretudo quando és obrigado a estar entre a multidão”, frase de Epicuro. A solidão, para Sêneca, cura nosso horror à multidão e a multidão cura nossa aversão à solidão. O sábio transita entre estas duas situações. Não sobrepõe uma à outra.

Presente, passado e futuro: Epiteto nos pede para zelar com o maior cuidado e interesse por este momento. Habite integralmente a situação em que você se encontra agora. Além disso, devemos nos livrar da culpa e da vergonha. É inútil fazer acusações e tentar encontrar explicações fáceis para acontecimentos complexos. O aperfeiçoamento humano é um esforço gradual em que se avança dois passos e se recua um. Perdoe-se a si mesmo muitas e muitas vezes e tente agir melhor da próxima vez. Marco Aurélio nos diz para se deleitar com o momento presente e não delirar a respeito do futuro. O mais da vida, ou já se viveu ou está na incerteza. Se cumprires o dever do momento, se nada esperar ou evitar, terás vivido feliz.

Hábito: Epiteto afirma que todo hábito é mantido e desenvolvido por suas atividades correspondentes: o habito de caminhar nos faz caminhar melhor, por exemplo. Sempre que você se zanga ou fica com raiva, mais aumenta sua raiva. Procure se acalmar e lembrar dos dias em que não se zangou. Comemore pequenos progressos. “Eu costumava ficar com raiva todos os dias, agora fica dia sim, dia não”. Marco Aurélio alerta: quando as forças das circunstâncias te deixararem transtornado, volta depressa a ti mesmo; não fique fora do ritmo além do necessário, porque serás tanto mais senhor da harmonia quanto mais frequentemente voltares à ela. 

Verdade: Marco Aurélio diz que se alguém provasse que ele estava errado, em suas opiniões ou atos, ele mudaria com prazer. Afinal, sua busca era pela verdade, que jamais causou danos a alguém; dano sofre quem persiste no seu engano e ignorância. Já os céticos, duvidavam que a verdade pudesse ser alcançada pelo homem. Uma possível razão para tal incapacidade seria a pluralidade de opiniões. Logo, a atitude razoável do homem seria a de suspender o juízo, ou seja, não negar nem afirmar (epoché). Refutar qualquer doutrina, indagando e combatendo a estagnação dogmática.

Ufa, quase perdi o fôlego aqui.

E você, leitor, aguentou bem essa porrada suave de sabedoria helenística?

Se eu fosse você, voltaria a ler este texto todas as vezes que você lembrar que ele existe.

Em cada leitura, algum ponto lhe chamará mais a atenção.

Te encontro no próximo passeio (se Deus quiser).

Grata pela leitura,

* Tati(ane) Fonseca é amiga da Filosofia, estudante de Mindfulness, Neurociência, Psicologia Positiva e praticante de Yoga. 

Obs: gravei uma aula sobre este conteúdo e coloquei no YouTube. Estou aprendendo a falar, além de escrever. Link do vídeo: https://youtu.be/4XbGrj0bTR0

Imagem: Matthew Henry, 2016. Disponível em: https://unsplash.com/photos/kX9lb7LUDWc

2 comentários sobre “retalhos helenísticos

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