Yoga, prosa e poesia

Professores de yoga não contam aos quatro ventos, mas o yoga surgiu com a intenção de nos fazer transcender o corpo físico, nos fazer encontrar o divino em nós.

por Ana Paula Cavalcanti*

Tem uma professorinha de português impregnada em mim. Por treze anos ela teve o protagnonismo do meu fazer, então é compreensível que ela ainda vibre nas minhas células. Agora o ganha pão é outro, mas acho que ela vai direcionar pra sempre o meu olhar para a vida.

Embora considere muito prematura qualquer escolha feita aos 17 anos, a minha foi certeira. Hoje, aos 44, ainda escolheria estudar Letras. Uma lembrança bonita que tenho dos meus dias de jovenzinha no banco do Mackenzie foi quando a professora perguntou: “Afinal, pra que serve a poesia?” Fiquei com a lição de que poesia não tem finalidade prática na vida cotidiana, ela serve apenas para encantar. Tão sutil, ela é brisa fugaz que refresca em dias de muito calor. Não pode ser vista, mas pode ser sentida. Poesia é um filtro com o qual enxergamos a realidade com mais sensibilidade, surpresa, encantamento e beleza. Tendo sido tanto tempo professora, é obvio que eu lançaria mão desse filtro para olhar para o yoga.

Quem é minha aluna já me ouviu dizer em aula que o yoga não é para ser visto, é para ser sentido. Num alongamento, a cabeça pode encostar no joelho às custas de muita dor, mas yoga não é para doer. Não importa o que veem da sua prática, importa como você se sente no seu corpo. O substrato de uma aula de yoga é a sensação. 

Aqui no Ocidente estamos acostumadas a dar fins terapêuticos para o yoga. Melhorar o alongamento, a dor na coluna, diminuir a ansiedade ou o estresse. Eu mesma comecei a praticar porque queria ser uma pessoa mais calma. Mas, à medida que fui estudando yoga, descobri que, assim como a poesia, ele não tem uma finalidade prática. Os antigos indianos não viviam estressados. Eles desenvolveram o yoga com a finalidade de transcendência. E à medida que eu avançava com os estudos e a prática, meu corpo confirmava o que o intelecto aprendia. 

Professores de yoga não contam aos quatro ventos, mas o yoga surgiu com a intenção de nos fazer transcender o corpo físico, nos fazer encontrar o divino em nós. Eu sei, parece papo religioso e até muito pretensioso isso de encontrar Deus em nós. Mas é que na tradição oriental Deus não está fora de nós, como comumente aprendemos na tradição judaico-cristã. Nessa filosofia, Deus, ou Força Cósmica, ou qualquer outro nome que você dê ao aspecto divino, se multiplica na diversidade de seres do universo e habita cada célula do nosso corpo. Fazemos posturas, aquietamos a mente tagarela, respiramos, ficamos quietas em silêncio…tudo isso nos coloca em condições favoráveis para vislumbrar o divino em nós. Quer coisa mais linda do que uma prática física que nos convida a encontrar nossa alma? Tão sutil, escondida, velada, silenciosa alma. Sem nenhuma utilidade prática e dependente de tanta sensibilidade, o yoga é, como eu o sinto, pura poesia. 

Já chorei em muitas aulas de yoga. Já me emocionei ao sentir as batidas do meu coração mais nítidas depois de uma postura de força. Caramba, olha o meu coração aqui. Não posso ver, mas posso sentir. Me encanta imaginar que meus órgãos interagem como uma orquestra regida com maestria e inteligência. Quem é o maestro? É o Atman, nome em sânscrito dado à nossa porção divina que nuca morre, que vive para sempre. Eu sempre termino uma aula de yoga, seja como professora ou aluna, querendo oferecer meu melhor para o mundo. Ana, mas e as nossas sombras? Nossa inveja, raiva, vícios, maldade, apego e tudo mais? Segundo essa tradição, todas essas causas de aflição mental são fruto da ignorância do homem que desconhece o sagrado dentro de si. 

 Eu desejo que a gente possa, em uma yoguinha por vez, encontrar nossa porção transcendente nesse corpo tão frágil. Sim, eu quero ter a sorte de envelhecer, então mesmo que um dia meu corpinho não possa realizar tantas posturas, que minha mente cultive as melhores lembranças do que ele foi capaz de fazer e que eu continue querendo beneficiar as pessoas com tudo o que aprendi de mais bonito com essa filosofia. Nunca esqueçamos que yoga é sobre ter uma postura mais amigável no mundo.

Entre as sístoles e diástoles de nosso coração, seguimos juntas.

Um fim de semana cheio de delicadezas e poesia para nós. 

Com afeto, Ana.

*Ana Paula Cavalcanti é professora de Yoga e fundadora do Leela Yoga de São Paulo e do Espaço Ana Paula Yoga em Foz do Iguaçu. (foto: Moskow)