Sobre amor próprio, já dei uns pitacos por aqui.

Dia 12 de junho foi dia dos namorados 

Aproveitando essa vibe, quero falar um pouco sobre o amor, amor pelo outro.

Um tema que tanto interessou e continua interessando.

Roteiristas costumam encaixar romances até em filmes de invasão alienígena.

Quando falamos em amor, outra palavra vem logo à mente: paixão.

Para o Neurocientista Pedro Calabrez, no entanto, paixão e amor não são ideias completamente diferentes.

Ele prefere considerar ambas como estágios de um mesmo processo.

Geralmente, o primeiro estágio é o amor apaixonado e o segundo, o amor companheiro.

No primeiro caso, tudo é automático, não temos escolha, somos reféns.

No segundo, nada é automático, escolhemos se esforçar ou se acomodar, somos protagonistas de uma construção diária.

A paixão ou amor apaixonado é um estado de grande motivação e prazer, com características de demência temporária, estresse, obsessão e compulsão.

Tem alta intensidade, mas curta duração (em média, 12 a 24 meses).

Eis alguns sintomas de quando nos apaixonamos: incapacidade de identificar imperfeições no outro; pensar no outro quase 24 horas por dia; preferência por aquela pessoa específica, como se ninguém fosse capaz de substituí-la; sentimento de grande prazer ao ter contato com a pessoa ou simplesmente pensar nela; desejar sempre ter mais tempo com o outro; aumento da ansiedade e insegurança; coração bate mais rápido e mais forte; perda de apetite e sono quando está junto da pessoa; e para finalizar, nossos desejos e impulsos vem à tona, sem freios e nossa capacidade de pensar nas consequências de nossas ações é diminuída, tal como quando ingerimos bebida alcóolica.

Quando tudo isso acaba, o amor pode (ou não) continuar existindo.

Então, do amor apaixonado passamos para o amor companheiro.

Este estágio tem baixa intensidade, mas longa duração.

O amor companheiro é composto por um forte laço de união, que se torna cada vez mais forte com o tempo.

Há profundo comprometimento, carinho, cuidado, segurança e confiança entre as partes.

Mantê-lo é muito mais difícil porque relações assim exigem esforço, apego, gratidão e valorização.

Ambas as partes precisam buscar, dia após dia, uma conexão melhor e mais forte.

Na Filosofia, destacam-se três grandes definições de amor: o amor eros, de Platão; o amor philia, de Aristóteles; e o amor ágape, de Jesus Cristo.

Eros significa desejo.

Amar, neste caso, é sinônimo de desejar.

Amo aquilo que desejo.

E o que é desejo?

Desejo é falta, é aquilo que não tenho.

Logo, amo o que desejo e desejo o que não tenho.

A presença é a morte do desejo.

Morrendo o desejo, o amor também vai embora.

Eros é amar um emprego quando estamos desempregado e amar as férias ou a aposentadoria quando estamos trabalhando.

Philia é entendida como amizade.

Um amor que é praticamente oposto ao amor eros.

Philia é alegria pelo que não falta mais.

É amor pela presença, pelo encontro, pelo que já tenho.

Uma reconciliação com a parte do mundo que me faz bem.

Um reconhecimento daquilo que é a causa da minha alegria.

Alegria que representa uma passagem para um estado mais potente do ser.

Por último, ágape, o amor incondicional pelo próximo.

Amor onde o eixo de gravidade se desloca para o amado.

É descer do pedestal do egoísmo e preocupar-se mais com o outro.

O amante se doa, se entrega, se esforça em prol do bem estar do amado.

O amante recua para que o amado se engrandeça; se apequena para que o amado triunfe.

Na série “The Midnight Gospel”, um dos personagens explica que o amor, para os tibetanos, é o quanto você consegue fazer outra pessoa feliz.

Bem semelhante ao amor cristão, não é mesmo?

E dessas 3 definições, qual você acredita estar certa?

Ora, certamente você deseja algo; alegra-se com a presença de alguém e ama ser a causa da alegria de outra pessoa também.

Então, parece que as 3 são verdadeiras.

Rubem Alves compara as relações amorosas com dois tipos de jogos: o tênis e o frescobol.

No tênis, o objetivo é derrotar o adversário.

O erro do outro é desejado.

Vence quem consegue impedir que a bola seja devolvida.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola.

A diferença é que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. 

Se a bola veio meio torta, sabe-se que não foi de propósito.

Busca-se devolver a bola com precisão, para que o outro consiga pegá-la. 

O desejo aqui é que ninguém erre. 

Ambos vencem enquanto a bola estiver indo e vindo, sem cair.

Numa relação do tipo “tênis”, o que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. 

Na relação “frescobol”, ninguém ganha para que os dois ganhem.

Nesse sentido, o professor Clóvis de Barros Filho afirma que “em uma relação verdadeiramente amorosa, os que dela participam sentem-se à vontade para apresentar suas fragilidades, sem que seus amantes disso se aproveitem para exercer suas forças”.

Para Confúcio, uma vida boa é aquela que se caracteriza pela relação que mantemos com outros seres humanos.

Suas relações dizem muito sobre você.

Viver bem é relacionar-se bem.

A vida será boa na medida em que estiverem dignificadas as relações do vivente em cenários específicos.

Caro leitor, como você pôde notar, esse tema é gigantesco!

O que achou da nossa reflexão até aqui?

Comente “quero mais” se você deseja continuar esse assunto em um próximo encontro.

Conteúdo há, eu garanto.

Grata pela leitura,

* Tati(ane) Fonseca da Silva é amiga da Filosofia, estudante de Mindfulness, Neurociência, Psicologia Positiva e praticante de Yoga

Referências Bibliográficas

BARROS FILHOS, Clóvis de; CALABREZ, Pedro. Em busca de nós mesmos. 1 ed. – São Paulo: Citadel Editora, 2017.

BARROS FILHOS, Clóvis de; KARNAL, Leandro. Felicidade ou morte. 1 ed. – São Paulo: Papirus 7 Mares, 2016.

Imagem: Michelle Leman. Disponível em: https://www.pexels.com/pt-br/foto/arranjo-organizacao-combinacao-disposicao-6765961/