VEGETARIANISMO E O QUE EU TENHO A VER COM ISSO?

Por: Letícia Quadros

Foto: Moskow

A forma como o Brasil produz alimentos hoje é altamente impactante. Enquanto uma pequena parte da população se delicia com pratos cheios de picanha, a Amazônia e o Cerrado estão sendo desmatados, principalmente por conta da produção pecuária. Ao mesmo tempo, outra parte da população sofre com a insegurança alimentar e outra ainda, com uma alimentação pobre em nutrientes e rica em alimentos ultra processados.
Dentro da lógica de produção industrial atual, grandes áreas de florestas são transformadas em pasto ou plantação de soja para a ração animal; recursos naturais essenciais são contaminados; trabalhadores rurais são constantemente explorados e animais são maltratados.
Ainda que seja sabido que em uma sociedade, todas as coisas podem ter custos econômicos, culturais, sociais, estéticos, ambientais, morais, etc. e que a produção de carne gera vários custos, infelizmente, quase todos são desconhecidos pela maioria da população.
De modo geral a carne é tida como necessária à nossa saúde, a sua produção necessária para o desenvolvimento econômico do país e para o fornecimento dessa fonte de alimento para a população em geral. Mesmo com poder de compra diminuído ante a crise econômica que vivemos, a população busca desesperadamente fontes de proteína animal, substituindo chamada “carne de primeira” por salsicha, mortadela e sardinha.
Contudo, o cenário atual deixa claro que a produção animal atual é uma forma extremamente ineficiente de se produzir alimentos, pois embora boa parte da população não esteja conseguindo acesso a produtos de origem animal de “qualidade”, o Brasil continua com o maior rebanho bovino no mundo, o terceiro maior rebanho suíno e o quarto maior rebanho de aves (1) exportando a maior parte desses animais, enquanto os impactos gerados por essa produção são suportados pela população nacional.
Estima-se que as operações de abate e processamento de animais custam ao país, em danos ambientais, 371% a mais do que a receita que geram (2).
Um dado frequentemente levantado é que são necessários, em média, 15.500 litros de água para a produção de 1kg de carne bovina e segundo previsões, se o consumo de carne continuar crescendo, a quantidade necessária de água para cultivar forragem pode dobrar até o meio do século. Assim, considerando os panoramas atuais e futuros com relação à escassez hídrica, somados aos cenários de aumento na demanda por carne, a injeção desse recurso na pecuária se torna cada vez mais questionável, o que posicionaria a produção e o consumo de carne como uma grande problemática no que diz respeito à escassez hídrica (3).
No mesmo sentido, se considerarmos a quantidade de alimentos utilizada para a produção animal, seria possível alimentar muito mais pessoas que bois (4), e, embora a problemática da fome seja complexa, não se restringindo a simples oferta de alimentos, é possível verificar que as taxas de consumo de carne influenciam no preço dos grãos, nas dinâmicas do uso da terra na agricultura, além de causar impactos, no sentido de concentrar a posse das terras e prejudicar a segurança alimentar, acabando por influenciar, ainda que indiretamente na questão da fome (3).
Assim, as possíveis soluções para o problema abordam desde mudanças nos sistemas produtivos de pecuária, regulações e taxações sobre os mercados da carne, até a modificação dos padrões de consumo da população, que é onde as dietas baseadas em plantas e o vegetarianismo se inserem (3).
A alimentação vegetariana (que exclui alimentos de origem vegetal do cardápio) tem sido alvo de diversos trabalhos científicos visando avaliar seus benefícios em relação à alimentação onívora. Populações que adotam uma alimentação vegetariana apresentam concentrações séricas mais baixas de colesterol, menor incidências de diversos tipos de câncer, e menor incidência de doenças cardíacas isquêmicas quando comparados aos onívoros (5).
Portanto, seja pelo prisma ambiental, econômico, nutricional ou até mesmo ético, é necessário questionar o modelo atual de produção, distribuição e consumo de alimentos de origem animal e considerar uma dieta menos danosa ao meio ambiente e principalmente aos seres que nele habitam.

Referência:

(1) GUARALDO, Maria Clara. Brasil é o quarto maior produtor de grãos e o maior exportador de carne bovina do mundo, diz estudo. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/62619259/brasil-e-o-quarto-maior-produtor-de-graos-e-o-maior-exportador-de-carne-bovina-do-mundo-diz-estudo. Acesso em 15.09.2021
(2) SCHUCK, Cynthia. Maior parte dos grãos vira ração, e não alimento humano. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/colunas/noticia/2018/04/maior-parte-dos-graos-vira-racao-e-nao-alimento-humano.html. Acesso em 15.09.2021.
(3) SOUZA, Ravi Orsini Camargo de. Vegetarianismo ambiental: estudo das controvérsias na relação entre vegetarianismo e emissões de gases de efeito estufa. Dissertação de Mestrado. São Paulo: USP, 2019.
(4) ESTEVE, Esther Vivas. O negócio da Comida: quem controla nossa alimentação? 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2017
(5) SILVA, Márcio de Campos e. Incentivo à prática de hábitos alimentares vegetarianos em uma equipe do programa saúde da família em São João Del Rei, Minas Gerais. Trabalho de Conclusão de Curso. UFMG, 2013.