Sabe aquela brincadeira de olhar para o seu amigo e apostar quem consegue ficar mais tempo sem piscar?

Eu sempre perco fácil.

Agora descobri que também não sou tão boa na brincadeira de olhar para a vida e ficar o máximo de tempo possível sem mexer no celular.

E você, quanto tempo consegue ficar sem o celular? Minutos, horas, dias, semanas, meses?

Qual o nível de dependência que você tem com ele? E com as redes sociais?

Às vezes, sinto falta de apenas movimentar um personagem no “the sims”.

Nas redes sociais, criamos uma nova espécie de “eu”, de “ser”, de “existir”.

Um “eu” virtual que passeia, consome e expõe-se em vitrines de um grande “shopping de posts”.

Pessoas fisicamente distantes conectando-se umas com as outras.

Avatares que, fora do shopping, podem até sentir-se sozinhos e carentes de interações, mesmo sendo elas apenas virtuais.

O primeiro detox digital voluntário que fiz durou 10 dias.

10 dias em um centro de meditação no interior do Rio de Janeiro.

Paisagem montanhosa, digna de um belo quadro.

Nesse curso, fazia-se basicamente 4 coisas: dormir, comer, ir ao banheiro e meditar.

Sem celular, livro, caderno, contato com outros participantes etc.

Foi só a partir do terceiro dia que eu comecei a apreciar essa perda temporária de conexão com o mundo externo.

Durante os intervalos de uma atividade e outra, caminhávamos pelo centro.

Eu costumava andar o mais devagar possível, observando o máximo de coisas ao redor.

Buscava detalhes que fossem capazes de me livrar da sensação de tédio.

Nesses passeios, fui percebendo certa disciplina na Natureza.

Eu acompanhava o desabrochar da dama da noite, por exemplo.

Sabia que de tardezinha, nos dias mais úmidos, eu tinha que andar com cuidado para não pisar nas dezenas de sapos que ocupavam os corredores dos dormitórios.

Notava o barulho que os lagartos costumavam fazer todas as manhãs ao saírem de suas moitas.

Assim, aos poucos, passei a me concentrar mais no que estava vivendo lá e fui ganhando cada vez mais consciência, presença e conexão com a vida por meio da observação do corpo, da mente e da Natureza.

Outro detox voluntário, eu fiz durante o período de isolamento ao testar positivo para a COVID 19.

Precisava me desconectar de novo, principalmente, das redes sociais.

Precisava me reconectar com algo parecido com o que vivi durante o curso de meditação.

E, felizmente, consegui.

Quando voltei, sentia-me renovada, leve e mais tranquila. Conto mais sobre isso no texto que publiquei dia 06 de abril. Para ler, clique aqui.

Por fim, propus a mim mesma não deixar mais essa sensação escapar.

Há pouco mais de um mês, faço um mini detox toda sexta-feira à noite com término segunda-feira de manhã.

Sem exageros, os finais de semana têm sido muito melhores desde então.

Consigo aproveitar melhor o tempo. Na verdade, parece que ganhei mais tempo.

Até minha ansiedade relacionada ao FOMO (“fear of missing out”) diminuiu.

FOMO, caso você desconheça, é uma expressão utilizada para representar uma espécie de medo ao sentir-se de fora.

À ela, acrescento uma curiosidade em saber o que os outros estão fazendo; angústia por não estar fazendo algo “postável” ao se comparar com os outros; vontade de matar o tédio com rolagens infinitas cheias de conteúdos vazios etc.

O fato é que, o ser humano é um ser social.

As redes sociais têm um potencial enorme de criar conexões e aumentar nosso sentimento de pertencimento à um grupo, o que é fundamental para nós enquanto espécie.

Likes ativam o sistema de recompensa do cérebro.

MAS, como na grande maioria das vezes, pecamos pelo excesso.

Quando essa necessidade de estar online torna-se muito intensa e frequente, em alerta devemos ficar.

Afinal, como está a qualidade da sua vida que não pode materializar-se em post e que, portanto, só você vê, sente e julga?

Apenas com verdadeiras pausas conseguimos capturar fragmentos extraordinários mesmo no ordinário do cotidiano.

Estar mais presente sem preocupar-se em postar ou distrair-se com o celular o tempo todo é necessário para mantermos nossa sanidade mental.

Descubra: o que realmente te preenche?

Usar o celular com consciência e limitação vai contribuir nesta jornada, garanto.

Então, não fique sem bateria, amigo leitor.

Tome seu detox digital e experimente o sabor da dependência, antes que a vida te obrigue a tomar um, sem aviso prévio ou qualquer moderação.

Grata pela leitura,

* Tati(ane) Fonseca da Silva é amiga da Filosofia, estudante de Mindfulness, Neurociência, Psicologia Positiva e praticante de Yoga. 

PÓS-TEXTO: numa manhã de segunda-feira, embarquei no ônibus. Coloquei a mochila, o guarda chuva e o celular no banco para pegar o dinheiro da passagem e entregá-lo ao motorista. Recolhi as coisas e passei a catraca. Sentei e esperei (a cena clássica da pessoa solitária olhando para a janela, pensando em tudo e fazendo nada). Desci no ponto. Cheguei na @casaflorir (onde faço aulas de yoga). Procurei o celular na mochila para conferir se estava no silencioso e, para minha surpresa e posterior tristeza, não o encontrei. Aparentemente, peguei as coisas do banco antes de passar a catraca, mas abandonei meu celular involuntariamente. Todas as tentativas de resgate foram fracassadas com sucesso. Neste dia, a meditação inicial da aula de yoga foi um pouco difícil… “será que alguém achou meu celular? será que vão desbloquear e mexer nas minhas coisas? será que vou conseguir recuperar ele? será que ligo para o ‘achados e perdidos’ da empresa de ônibus? como faço para bloquear o meu número? como faço para tentar localizar? Putz, as parcelas… eu ainda nem terminei de pagar!”