Quem são seus amigos? Por que eles são seus amigos? O que os diferencia dos demais? Você tem os amigos que gostaria de ter? Você já perdeu amigos que não queria ter perdido? Quais as suas virtudes como amigo? És o melhor amigo de alguém?

Essas e outras perguntas pairam no meu plano mental há algum tempo.

Motivo: minha dificuldade de manter relações de amizade (relações, no geral, mas vou devagar para não assustá-lo, caro leitor).

Sempre admirei adultos que assumem: “fulano é meu amigo de infância”.

Com quase 27 anos, percebo que minha amizade mais longa tem uns 7.

Sabe quando você faz um pedido e te perguntam: “é para comer aqui” ou “levar para a viagem”?

Minhas amizades são do tipo “para comer aqui”.

Em cada fase eu tive um grande amigo.

Depois, “puff”! Paladar muda, outra fome, um novo pedido.

Parece um ciclo não virtuoso, cujo preço está cada vez mais alto.

Longe de sentir culpa, muito menos culpar alguém.

Culpa e ressentimento não são as melhores lentes para olhar o passado.

Aqui está em jogo a reflexão.

Pergunto-me porquê essas são as tendências das minhas amizades.

Existem algumas opções (mais cumulativas que alternativas).

  • Tempo demais no meu mundinho (“pareces autista”, já disseram).

Quando criança, lembro da minha mãe insistir para eu brincar com alguém.

Eu me entretinha (e muito bem) sozinha.

No recreio, eu trocava interações físicas por qualquer livro da série “Vaga-Lume” disponível na biblioteca.

  • Egoísmo

Dividir coisas?

Eu sabia exatamente onde me esconder para evitar as ameaças reducionistas (sobretudo se o objeto protegido fosse algum tipo de doce).

  • Timidez.

Um “bichinho do mato”.

Meu “modo tábua” era ativado toda vez que um abraço era iminente.

Telefone tocava, eu fugia como o diabo foge da cruz.

Visita em casa? Socorro! 

Sorte dispor de uma toca para abrigar-me.

Meu quarto, meu refúgio (felizmente, isso permanece).

  • Baixa empatia, certa frieza e pitadas de frases não polidas.

Já fui a “mais grossa que uma tora” e o tal do “coração de gelo”, preso numa armadura (levemente) reforçada.

Incapacidade de enxergar necessidades que não são as minhas (e nem as minhas eu enxergo tão bem assim).

Comunicação ríspida, intensa e deveras impulsiva.

Se um prova de inteligência emocional valesse 10, com alguma sorte eu tiraria um 4.

  • Falta de autoconhecimento, autoestima e autoconfiança.

Esse é fator mais importante, senão o principal.

Como esperar algo de fora se dentro é vazio? Como entregar o que não tenho? Como expressar o que sou sem me conhecer? Como ser sincera senão entendo o que sinto?

É justamente nisso que venho trabalhando com afinco nos últimos 2 anos.

E venho exponho os assuntos que eu mais preciso internalizar.

Ah, por que tenho dificuldade em manter amizades?

Acho que você entendeu um pouco (eu espero).

“Estás assumindo um papel de vítima, Tati?”

Minha intenção não é essa.

Busco admitir e acolher cada um dos meus demônios e esquisitices.

Melhorar? (“por favor”, todos clamam).

Em determinados aspectos, é possível (até mesmo um dever, para alguns).

Foi, é e continuará sendo possível para mim.

Deixo-vos com uma fala do Professor Pedro Calabrez, recebida esta semana na caixa de entrada (como é de costume nas segundas-feiras):

“Seja o melhor amigo de si mesmo. Nas dificuldades, console a si mesmo, tal como faria com seu melhor amigo. Nas alegrias, celebre consigo mesmo, tal como faria com seu melhor amigo. A vida é dura e difícil o suficiente. Não cultive um inimigo dentro de si.”

Grata pela leitura,

* Tati(ane) Fonseca é amiga da Filosofia, estudante de Mindfulness, Neurociência, Psicologia Positiva e praticante de Yoga.