A Semente da Intolerância

Nós, como adultos, sabemos que é impossível dizer que somos todos iguais.

Nós, como adultos, sabemos que temos cores, formas, preferências, e condições diferentes. 

Então por que quando uma criança questiona ou aponta determinada diferença apelamos logo para o “somos todos iguais” em vez de explicar que há sim distinção, porém isso não significa que um grupo de pessoas é melhor do que o outro? 

É um fato que nenhuma criança nasce intolerante, com preconceitos, mas que isso é ensinado ao decorrer de seu desenvolvimento. Podemos ver isso tanto em situações diárias quanto em diversos experimentos sociais e pesquisas. 

As crianças, assim como nós, enxergam as diferenças sim e, por isso, é necessário explicar que “somos todos diferentes”.

Meu irmão mais novo, que atualmente tem nove anos de idade, sempre amou desenhar e pintar. Sonha em ser artista. Me recordo de uma conversa que tive com ele a alguns anos atrás sobre cores. Mais especificamente sobre o lápis “cor de pele”. É engraçado o fato de acharmos que explicar certas coisas para as crianças é um bicho de sete cabeças quando na verdade é mais simples do que se pode imaginar. Foi uma conversa curta e simples, sobre como não podemos chamar tal cor assim pois existem várias e várias cores e tons diferentes de pele. 

Nós associamos a palavra “diferente” a algo ruim, e o problema começa aqui. 

Para ele foi algo extremamente simples de entender. Ele percebeu que, de fato, as pessoas não tem uma mesma cor e, a partir de então, passou a chamar tal cor de “bege” e nunca mais, até hoje, como “cor de pele”. E não somente isso, pouco tempo depois, ainda no mesmo dia, desenhou uma menina (princesa ou fada, não me recordo) negra e estava todo contente ao me mostrar. Hoje seus desenhos são cheios de diversidade. 

Ou seja, esse é um exemplo de como pequenas coisas que tratamos como irrelevantes podem fazer uma grande diferença.

O filósofo inglês John Locke difundiu a ideia da mente do ser humano como uma “tábua rasa” e, nesse sentido, para ele seriamos como folhas em franco ao nosso nascimento e, a partir de então, moldados a partir da educação e conhecimos que serão nos passados.

A discussão com as crianças quanto à questão de gênero e sexualidade é um gigantesco tabu ainda existente, infelizmente.

“Mas o que eu vou falar para a minha criança quando ela ver duas pessoas do mesmo sexo/gênero de mão dadas ou se beijando?”

Simples.

O mesmo que você falaria se fosse um casal hétero: são duas pessoas que se amam e, por isso, estão juntas. 

Acredite, a provável reação da criança será de compreensão e/ou indiferença, pois até aquele momento, em sua mente pura e sem maldade alguma, o padrão heteronormativo não existe. Então ela não verá como algo “fora do normal”, porque o seu normal será o apresentado naquele momento. 

O problema real está nos adultos disfarçando seus preconceitos e intolerância como “preocupação”.

Preocupação com o quê? 

No que um casal homoafetivo, uma pessoa fora dos padrões normativos, um garoto de saia ou com unhas pintadas, uma garota de cabeça raspada ou usando “roupas de menino” vai afetar a criação de seus filhos?

Já parou para pensar que sua criança não poderia se importar menos com tudo descrito acima mas que ela poderá sim absorver todo esse ódio e se tornar uma pessoa de má intenções? 

É como se tudo que não for “tradicional” assustasse algumas pessoas por determinado motivo. 

Na realidade, não há nada mais fácil do que explicar para uma criança que ainda não foi enviesada sobre as diferenças entre os seres humanos: o mundo tem mais de sete bilhões de pessoas, de todas as cores e tamanhos, não existe um tipo certo e outro errado, somente tipos diferentes; cada pessoa tem uma diferente preferência quanto a quem amar; algumas pessoas nascem insatisfeitas e infelizes com os seus corpos e decidem mudá-lo; algumas pessoas tem condições que as fazem precisar de mais atenção; não existe isso de “coisa de menina” e “coisa de menino”, cada um faz, brinca, e veste o que faz a pessoa se sentir confortável. 

Todo tipo de intolerância, seja este o racismo, a homofobia, a transfobia, a gordofobia, o capacitismo, a xenofobia ou o machismo são ensinados. São semeados na mente das crianças, gerando atitudes discriminatórias(que, consequentemente, podem impactar negativamente na vida de outras pessoas, gerando inseguranças e causando danos a estas).

A representatividade, seja nas mídias ou no dia a dia, é essencial. O progresso é lento mas existe. Mulheres negras como protagonistas, super-heróis com deficiência auditiva e asiáticos, personagens LGBTQIAP+ aparecendo cada vez mais nos livros e telas… tudo isso serve para mostrar às crianças como todas essas diferenças são normais. 

É de extrema importância conversar com as crianças, mesmo que elas não questionem. É importante abordar os temas da forma certa pois o que pode ocorrer é o efeito contrário: invés da criança se influenciar de forma positiva pela representatividade que assiste em seus desenhos e jogos, ela pode se afetar pelo comportamento de alguma pessoa próxima que seja intolerante.

Por isso, chame suas crianças, seus irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, e converse sobre assuntos necessários. Você pode abordar um tema diferente a cada semana, por exemplo, e busque a melhor forma de fazê-lo. Deixe claro que eles podem tirar dúvidas contigo, que é seguro conversar com você. 

O ódio, a intolerância, e o desprezo não levarão a lugar algum. Talvez à prisão, mas nada além. 

O mundo é tão simples porém as pessoas escolhem complicá-lo. 

Então ensine o respeito, a tolerância, e o amor. 

A mudança e a transição para um ambiente mais positivo começa por aí. 

Pelas crianças.

Marwa Termos – Internacionalista, Feminista e Militante dos Direitos Humanos.