Guia de Artistas de Foz: Conheça a escritora Aurora Lima

Aurora Lima é estudante de Ciências Biológicas na UNILA, natural do estado de São Paulo e vivendo em Foz. A artista se dedica a transcrever seus sentimentos e vivências em palavras, e as publica em sua página do Instagram @respireoseuamor (que como descreve, é um lugar onde se pode vomitar tudo o que sente).

Neste post, apresentamos alguns dos textos escritos por Aurora. Continue acompanhando!

Hoje acordei sentindo revolta, despertei-me de um sono o qual a sociedade tinha me imposto.
A cada dia que passa entendo mais como posso lutar pelo meu povo.
Brasileira latino americana,
Eu escolhi acordar.

Todas nascemos do mesmo modo, com sangue aos berros já condenadas pela sociedade
a mesma que nasceu com sangue,
Aos berros.

Isso me assusta, me assusta como tão claro está e ainda escolhemos não nos amar.

Talvez isso seja uma projeção da qual a sociedade espera que eu seja,
Uma projeção criada para eu me esconder, ter vergonha do meu corpo e da minha existência.
Me transformar em um indivíduo da qual poderia jogar toda sua pluralidade fora e se tornar mais uma peça no meio de tantas engrenagens
Sujas,
Secundárias e
Quebradas.

Porém

Hoje acordei sentindo revolta, livre de valores, livre de engrenagens, livre de você.

Você que olha pra travesti como se fosse um homem vestido de mulher e prostituta
Você que faz piadinhas transfóbicas com teus amigos heteros cis
mas depois ta la usando # falando de setembro amarelo e postando sobre apoio as mulheres
Você que se acha o machao por diminuir uma mulher trans simplesmente porque ela não satisfaz teus esteriótipos e sexualização do corpo feminino.

É libertador perguntar me “quem eu sou?” E ser capaz de responder plenamente.
Sou brasileira latino americana
Sou travesti
Sou a presente eu, não o do passado, não o do futuro, muito menos o eu criado pelo mundo.
Sou Dandara morta pela projeção de uma sociedade
Sou a luta pelo direito à humanidade.
Sou a pluralidade

Sou uma junção de mim mesma, das relações, dos lugares dos quais passei, das corações os quais morei, dos valores que me desapeguei, das cicatrizes que conquistei, da vida que lutei.

Porém apesar de tudo, com sangue
aos berros,
nasci condenada por uma sociedade,
a qual dorme,
em silêncio.

Mas fique tranquilo, meu querido
aos berros sua nação também grita
ACORDA!!
Não aceitaremos mais suas alucinações
Muito menos suas invalidações
A revolução chegou para ficar
Não vamos mais aceitar esse teu ego inflado que tenta nos derrubar
Estamos vivas
Estamos presentes
E como ja diria Bianca Monicongo
Que nenhum macho nas travestis consiga encostar.

Ilustração de Maite Pastorini (2021) Instagram: @httpastorini

Brasil, trabalhe enquanto eles morrem.

Brasil, Trabalhe enquanto eles morrem.
Hola sou eu de novo
Sou Latino América gritando por socorro
Para ser mais precisa sou Brasil
Onde mães deixam de comer para alimentar seus filhos.

Sou Marielle viva
Dentro de cada mulher que grita pelo direito a vida de sua família
Sou o índio que morre lutando pela sua terra
Sou cada última respiração de 389 mil vidas perdidas pelo desgoverno de uma nação
Desgoverno de um presidente que fecha os olhos ao sangue derramado em suas mãos
Que fecha os ouvidos aos gritos de misericórdia da população.

Mas não se engane
Já estamos “acostumadas” com a falta de atenção
Por isso também somos Latino América
A cada Marielle morta 100 nascem agora.

Nossa voz nunca irá ser calada, muito menos por um militar
Sobrevivemos a ditadura quando o AI-5 tentou nos censurar
Sabemos que os governantes não deixaram de trabalhar
Por isso não vamos parar de lutar.

Até que nosso povo tenha a saúde que merece
Até que nossa fauna e flora seja respeitada da maneira que deve
Vamos continuar
Até que todas as famílias periféricas tenham pelo menos o mínimo para sobreviver
Somos Brasil, o país que vive lutando
Mas vive.

Video performance criada por Aurora

Sabe quando você era criança e sua mãe dava aquele remédio ruim?
Você tinha que engolir tudo
E se cuspir
Já sabe né?

Acho que de alguma maneira todos nós mantemos viva a nossa criança interna, seja em relacionamentos, família, a vida em geral.

Ela é aquele pontinho de vontade de jogar tudo pro alto e fugir pra bem longe.
É aquela vontade de correr pro colo da nossa mãe e ouvir ela dizendo no canto do ouvido “vai ficar tudo bem, a mãe ta aqui”

E no fundo a gente sabia que ia ficar tudo bem afinal não estávamos sozinhos para lidar com à vida, alguém já fazia isso pela gente.
Mas e agora?

O que a criança iria fazer quando alguém à machucar e a vida não for justa fazendo-a engolir frustrações formadas pelas expectativas de uma mera,
Criança.

Ela se desespera, grita, corre, chora,
Mas nada parecia mudar agora
E ela se perguntava
“porque a demora?” O remédio já não fazia mais efeito,
O gosto ruim ficava,
mas a dor,
Continuava.

Teria ela que lidar com a vida sozinha,
teria que aprender a se virar e criar seu próprio remédio, porque ninguém o faria por ela.

A vida é assim, no final do dia a gente só tem o nosso próprio abraço, o remédio é o nosso amor próprio o qual muitas vezes é difícil de engolir e acreditar que ele realmente vai fazer efeito, porque ele demora, não é algo que se consegue de um dia para o outro, porém sem ele você não tem ninguém,

Muito menos você.