Como Se Fosse a Última Vez

GATILHOS: TRANSTORNOS MENTAIS, SUICÍDIO, E MORTE.

“A morte é mais universal do que a vida; todo mundo morre, mas nem todo mundo vive.” (Andrew Sachs)

Na última sexta-feira, no dia 5 de novembro de 2021, a cantora e compositora Marília Dias Mendonça faleceu em um acidente aéreo enquanto partia para cumprir agenda de shows em Minas Gerais. Morreram também todas as quatro outras pessoas a bordo: o piloto, co-piloto, o produtor da cantora, e o tio e assessor dela. 

A morte da cantora foi um choque para milhares de fãs em todo o país que ainda estão prestando homenagens diariamente. 

Pouco antes de sua morte, Marília fez postagens em suas redes sociais, como se fosse qualquer outro dia em sua rotina. Mal sabia ela que seria sua última postagem. 

Isso me fez parar e me questionar: qual será a última coisa que vou fazer antes de morrer? 

Pois é, falar em morte é sempre um assunto delicado. As pessoas parecem não estar prontas para aceitar a ideia de que as pessoas mais próximas à elas, sejam familiares ou amigos, podem partir a qualquer momento, em um piscar de olhos. 

Seria muito mais fácil conviver com as pessoas ao nosso redor se a gente aceitasse a idea, imaginando qual é a última memória que queremos ter com alguém. 

Será que você quer seu último contato com seu irmão ou irmã seja uma briga por algum motivo banal como quem mexeu nas roupas do outro, ou quem pegou o carregador emprestado e não devolveu?

Será que você quer que sua última conversa com seus pais seja uma briga ou discussão porque não lavou a louça, porque deixou as roupas jogadas no sofá, ou porque voltou muito mais tarde do que horário estabelecido?

Será que você quer na consciência um comentário ou uma fofoca que espalhou sobre alguém sendo a última coisa que falou sobre tal?

Será que qualquer um desses cenários vale a pena?

A gente desvaloriza tanto as nossas relações pessoais sem mesmo perceber.

Deixamos tudo para consertar depois… mas e se o depois não chegar?

O que vem no lugar é o arrependimento, a culpa, a tristeza. 

Nós só damos valor para a vida quando a morte se aproxima de nós.

Não é somente sobre a última memória que queremos deixar antes de partirmos, mas também sobre a memória que queremos junto a pessoa que partiu.

Inúmeras vezes estive em situações em que pessoas não quiseram confrontar parentes e amigos no berço da morte porque querem “preservar as boas memórias”. 

Quando você sai com um amigo ou amiga que dirige e tal te deixa em casa, o que te garante que você verá a pessoa novamente? E isso vale para qualquer situação com qualquer pessoa. Quando tal pessoa está viajando de ônibus ou avião. Quando está atravessando a rua.

O que acontece é que nós simplesmente não imaginamos que algo de ruim acontecerá. Parece que nosso cérebro está programado para não pensar nos cenários negativos que nem se passa na nossa cabeça. Simplesmente damos as costas e ccontinuamos a viver nossa vida normalmente. 

“Mas o que a gente faz? Se preocupa o tempo todo?”

Não. 

Óbvio que essa não é uma alternativa, até porque a paranoia iria te destruir de dentro para fora. 

É mais sobre apreciar todos os momentos que você tem ao lado das pessoas que você ama. Dos mais simples como sentar e ter uma boa conversa até fazerem uma viagem juntos. 

Sabe aqueles sentimentos entalados na garganta? Coloca para fora. Diga o que sente às pessoas que você ama antes que não haja mais ouvidos para escutar suas palavras. 

Isso também serve para você mesmo. 

Sempre teve vontade de artista mas nunca tomou iniciativa porque não acha que tem talento ou que não vai fazer diferença alguma? Pois vai. Começa aquele curso de artes que sonha em fazer. De pintura, balé, cerâmica. Ou qualquer outro tipo de arte.

Pega aquele instrumento que está empoeirado no quarto porque você “nunca tem tempo” para aprender a tocar apesar do interesse e arranja tempo. 

Tem algum livro que escreveu e guardou para si mas sempre teve vontade de publicar e não o fez por medo dos comentários negativos? Quem se importa com o que os outros tem a dizer. Vai lá e procura uma editora. 

Quer ir para um festival de música? Colocar uma mochila nas costas e viajar sem rumo? O que está te impedindo. 

Sabe aquele pedaço de pizza que está com vontade de comer mas não quer estragar a dieta? Que se dane a dieta. Quem comer a pizza e quem não comer, ambos vão morrer uma hora. Talvez uns mais satisfeitos que outros. 

Quer fazer alguma tatuagem, colocar um piercing, ou um alargador? Pintar o cabelo das cores mais coloridas? Quer fazer aquela cirurgia plástica para corrigir alguma insegurança? 

FAÇA. 

O importante é fazer sem atrapalhar os outros fazendo o mesmo. 

Cuidado com o que você fala. Cuidado com os julgamentos que faz. Cuidado em como age com as pessoas ao seu redor, conhecidos ou desconhecidos. Porque assim como a morte é algo acidental, ela também pode ser feita de propósito. 

Seu comentário maldoso pode contribuir para o suicídio de alguém. 

O mais engraçado (e triste) é que na hora que tal pessoa está passando por um momento ruim ou pedindo por ajuda, sofrendo com seus transtornos mentais, seja depressão, borderline ou bipolaridade, ou qualquer outra doença em que a pessoa mais necessita de ajuda, quando está se automutilando e se autodestruindo, ela é louca. Quer chamar atenção. É falta de fé. 

Mas quando esta mesma pessoa chega no limite e se suicida, as mesmas pessoas que julgavam, que falavam mal, são as que começam a fazer textinhos positivos nas redes sociais, lamentando a morte e falando do quão boa tal pessoa era.

Enfim, a hipocrisia. 

Nós valorizamos a morte mais do que a vida. 

E essa é uma falha de cada um de nós como membro da sociedade. 

Então, viva.

Viva por você. 

Faça aquilo que você ama e o que quer deixar de memória quando se for.

Trate cada momento como se fosse o último porque pode ser, acredite ou não.

Por fim, vamos fazer um exercício rápido.

Pare por um momento e escolha alguma pessoa que ama, qualquer uma, e reflita: se essa pessoa morresse nesse momento, você teria algum arrependimento? Algo que precisava ter dito ou feito antes? Algo que não deveria ter dito ou feito?

Outro exercício.

Se você morresse nesse momento, qual seriam seus arrependimentos?

Marwa Termos – Internacionalista, Feminista e Militante dos Direitos Humanos.