GATILHO: DISTÚRBIOS ALIMENTARES!

Redes Sociais. 

Hoje em dia, praticamente toda pessoa com acesso à internet, especialmente o público mais jovem, deve ter pelo menos uma rede social na qual tem cadastro e utiliza com frequência, seja este para comunicação, entretenimento, comércio, educação ou para passar determinada mensagem.

Podemos dizer que esse acesso ocorre de forma diária. Muitas pessoas, antes mesmo de se levantarem da cama, alcançam o celular para checar suas redes sociais, seja este o Instagram, o  TikTok, que mais está em alta atualmente, o Youtube, o Twitter, o Snapchat, o Facebook, e diversos outros. 

Estas são plataformas gigantescas onde as pessoas ao redor do mundo compartilham selfies, imagens, vídeos e mensagens. Ou seja, qualquer pessoa é capaz de ter voz, independente de que haja público ou não.

Mas e qual o impacto dessas redes em nossas vidas, mais especificamente em nossa imagem? 

Inicialmente, vamos entender a separação entre os grupos por idades: começamos com a geração X, que são as pessoas nascidas entre 1965 e 1980; logo após, vem a geração Y, mais conhecida como Millennials em inglês (a geração do milênio), que diz respeito a quem nasceu entre 1981 e 1995; e, por fim, a geração Z, para quem nasceu entre 1996 e 2010.

Para aqueles nascidos a partir dessa década, damos o nome de geração alfa. Mais especificamente entre 2010 e 2025.

Curiosamente, o termo geração alfa foi determinado pelo sociólogo australiano Mark McCrindle pelo fato dessa geração ser 100% digital. Estes são normalmente filhos dos Millennials e irmãos da geração Z. A geração alfa está imersa em tecnologia, já desde o seu nascimento. 

É importante entender essa separação para que possamos enxergar como a mídia atua nos diferentes grupos de diferentes formas. O foco será nas últimas gerações.

Tendo isso em mente, podemos falar do público adolescente. Toda pessoa que passou por esta etapa da vida, sabe o quão turbulenta pode ser. É normalmente nessa época em que iniciamos a nossa busca por aceitação e validação das pessoas ao nosso redor, em que estamos construindo e trabalhando nossa personalidade.

O que ocorre com a introdução das redes sociais é que além da preocupação ser uma só, sendo esta a interação social, passa a existir a virtual. A busca que no início era apenas para um grupo isolado de pessoas se expande. Se inicia um tipo de competição que muitas vezes é criada por uma mão invisível: quem tem mais seguidores, quem teve mais visualizações, quem tem mais curtidas, e por aí vai.

Sendo uma competição amigável e saudável, não provocaria reação, porém a medida que isso vai evoluindo, as consequências podem ser desagradáveis e em determinadas situações catastróficas. 

Quantas vezes você já utilizou um filtro para “embelezar” sua selfie? Quantas vezes editou suas fotos para remover “imperfeições”? Quantas vezes já baixou e utilizou aplicativos tais como o AutoTune para “só dar um retoque” nas suas fotos?

Agora, quantas vezes fez isso porque ficou pensando nos comentários negativos que receberia por estar com uma simples espinha no rosto? 

Da mesma forma que você pensou nisso, a pessoa do outro lado provavelmente está fazendo o mesmo, editando fotos com o intuito de atingir a perfeição a ponto em que ela se torna irreconhecível.

Diariamente, toneladas de celebridades, influenciadores, modelos e marcas usam essas mídias sociais para se vender, e para fazê-lo, criam uma imagem de perfeição.

A ideia da perfeição.

São milhares e milhares de contas no Instagram que promovem imagens de seres humanos perfeitamente esculpidos, pele tonificada e livre de qualquer “imperfeição”, estômagos achatados, barriga de tanquinho, músculos bem definidos, seios vistos como ideais, pernas finas e longas e nádegas perfeitamente arredondadas.

Essa gigantesca base de celebridades e principalmente influenciadores que adoram promover em suas redes sociais determinado estilo de vida que supostamente seria perfeito, faz dinheiro promovendo chás emagrecedores, shakes fit, e rotinas ilusórias que só quem tem tempo e dinheiro de sobra pode seguir.

O que os influencers deixam de mencionar são a limpeza de pele toda semana, os produtos que custam o olho da cara, a lipo, a abdominoplastia, a rinoplastia, a bichectomia, procedimentos para remover manchas, o photoshop, o ângulo e luz favoráveis. O problema não é a cirurgia plástica em si, mas sim o sentimento de pressão para fazer uma para se encaixar em determinado padrão de beleza. 

Porém a partir dessa exaltação de belezas irreais e artificiais, que passam a ser tidas como padrão que tanto os Millennials mais novos, a geração Z, quanto até mesmo a alfa, no caso dos pré-adolescentes, são significativamente influenciados, de forma negativa. 

Beleza idealizada, padrões irrealistas e inalcançáveis, obsessão por uma beleza computadorizada.

Chega um ponto em que os adolescentes passam a se representar mais com sua imagem alterada por filtros, edições, e retoques do que com sua reflexão no espelho, o que leva eles a um conflito interno consigo mesmos, passando a gostar menos e menos de como são de fato. A criar uma imagem distorcida de si.

Tudo isso pode gerar uma baixa autoestima, que pode ser acompanhada de depressão e automutilação. 

Essa distorção de imagem também pode levar a transtornos alimentares, tais como a anorexia, que possui a maior taxa de mortalidade entre estes, onde a pessoa mesmo estando abaixo de seu peso ou desnutrida se vê com um medo intenso de se alimentar e ganhar qualquer peso, e a bulimia, que seguido de compulsão alimentar, vem o uso de diuréticos, laxantes, e a indução de vômito para remover os alimentos o mais rápido possível do corpo.

Felizmente, é possível notar determinada mudança de comportamento carregado pelas últimas gerações. Isso é visível em comerciais, passarelas, e em inúmeras marcas que passaram a adotar o movimento da positividade quanto às diferentes cores, formatos e tamanhos dos mais diversificados corpos. 

Apesar de muitas marcas, infelizmente, se utilizarem disso para se promoverem, como uma forma de publicidade, elas acabam inevitavelmente contribuindo de forma positiva no movimento no quesito de representatividade. 

Ao acessarem suas redes sociais e se depararem com corpos com os quais se identificam, corpos parecidos com os seus, sendo apreciados e cheios de comentários positivos, já é um começo. 

A medida que isso vai se repetindo, a medida que corpos gordos, com estrias e pelos, rostos com acne, cravos, e espinhas, altos, baixos, e todos os tipos de corpos passam a ser vistos com frequência nas redes sociais, uma sensação de acolhimento já é transmitida para inúmeras pessoas com problemas em aceitar seus próprios corpos. 

O “corpo de modelo” sempre dominou as revistas e as passarelas. O que mudou com o avanço da tecnologia é a viralização de imagens ao redor do mundo em questão de segundos. Com toda essa atenção, muitas pessoas começaram a usar suas plataformas para criticar e questionar os padrões de beleza. 

Apesar de ainda existir um longo caminho pela frente, já é possível enxergar a diferença que influenciadores fazem quando usam suas vozes de forma positiva no público mais jovem.

A semente “body positivity” foi plantada e, junto à geração Z, está crescendo com a geração atual. Não há tanto espaço quanto antigamente para criticar os corpos alheios. Os mais jovens não hesitarão em desgostar daqueles que espalham comentários negativos e criticam corpos alheios.

Esperançosamente, estas gerações serão capazes de fazer o que as mais antigas falharam em fazer, que é acabar com a noção de existir um tipo de corpo perfeito que precisa ser seguido e abrir as portas para um feed mais diversificado.

Um feed mais natural. 

Suas imperfeições tornam seu corpo perfeito.

Naturalmente bonito e único.

Marwa Termos – Militante dos Direitos Humanos e das Mulheres, graduada em Relações Internacionais.