O Mito da Meritocracia

Você já parou para pensar em seus privilégios hoje?

Para início de conversa, o que significa ter privilégios?

Bem, segundo o dicionário Michaelis, a palavra “privilégio” pode ser entendida como “riqueza ou posição econômica e social acessível a uma minoria” ou também como “oportunidade ou permissão dada a certas pessoas ou coisas com exclusividade”.

Ou seja, ser privilegiado é ter acesso e poder usufruir de meios e recursos não acessíveis para todos.

O privilégio (ou sua falta) começa assim que o ser humano nasce.

Nasceu branco? Já significa que não precisará lidar com o racismo da sociedade, seja no dia-a-dia ou mais a frente quando chegar o momento de procurar uma vaga de emprego. Isto é, uma preocupação a menos.

Um ponto para o privilégio branco.

Nasceu em uma família classe média-alta ou alta onde nunca precisou conciliar os estudos com um trabalho para ser capaz de pagar coisas básicas como água, conta de luz, alimentação e transporte? Você é privilegiado. Porém, ao mesmo tempo, direitos básicos não podem ser vistos como privilégios.

Um ponto para o privilégio socioeconômico.

Nasceu homem? Em uma sociedade onde o patriarcado está enraizado nas estruturas socioeconômicas e culturais, nascer ou se identificar como mulher é, muitas vezes, um empecilho no momento de conseguir uma vaga de emprego. A noção enraizada na qual a mulher não será capaz de cuidar de ambos o trabalho e os filhos, ou que ela é muito sensível para um trabalho x, apenas reforça a desigualdade de gênero e corrobora com a ideia do homem como provedor e racional. Ou seja, seria o homem mais ideal para o trabalho.

Um ponto para o privilégio de gênero.

Em agosto deste ano, viralizou a foto de um grupo de funcionários de uma empresa brasileira, onde quase a totalidade destes são homens brancos. Na foto, onde há em torno de cem pessoas, apenas poucas são mulheres e não há nenhuma pessoa negra.

Simplesmente não há como dizer que não existe uma discriminação sistemática ao realizar as contratações dos funcionários. Imaginou o tanto de pessoas, negras e mulheres, que se candidataram a determinado cargo e provavelmente foram dispensados mesmo com ótimo currículo por “não se encaixar no perfil”?

Isso nos leva a pensar sobre a tão falada “meritocracia”.

Constantemente ouvimos, principalmente por pessoas ricas e coaches (que estão na moda ultimamente), que é só questão de querer que você consegue. Você, supostamente, é capaz de alcançar o topo com sua força de vontade.

“Tenha uma boa noite de sono, acorde cedo, crie uma rotina, dê uma caminhada, se alimente direito, separe e invista parte do seu dinheiro, etc, etc.”

É muito fácil para quem sempre teve tudo entregue de bandeja fazer tais discursos, pois a pessoa não entende como funcionam as coisas no mundo real.

Como uma pessoa, recebendo o salário mínimo de 1.100 reais, vai conseguir pagar as contas de água, luz, aluguel, fazer compras de mercado, pagar as despesas de transporte, vai separar dinheiro para investir?

Isso sem mencionar vestimentas e, quando na presença de filhos, fraldas, roupas, leite e outros .

É muito fácil falar em meritocracia quando a pessoa estudou toda a vida em escola particular, com professores particulares quando com dificuldades, nunca precisou ir à escola a pé ou andando de transporte público porque havia quem os levar e buscar de carro.

É muito fácil reclamar de cotas quando a pessoa está fazendo três cursinhos preparatórios, tem acesso a internet, celular, tablet, e notebook de última geração. Sem contar o simples fato de não ter outras preocupações além disso.

Quando sua única função é estudar de cabeça tranquila porque você tem o que comer, onde dormir, e sem se preocupar com as contas e despesas da casa, você é privilegiado sim.

Enquanto reclama do sistema de cotas, do outro lado existe alguém que frequentou escola pública toda a vida, não teve oportunidades e trabalhava meio período para ajudar nas despesas da casa. Chegando em casa a noite, depois de um dia exaustivo, é hora de estudar. A pessoa não tem um espaço ou ambiente adequado para estudar, muitas vezes sem acesso a internet. Sem contar todas as frustrações mentais quanto às condições financeiras da família, tais como contas a pagar e boletos atrasados.

Essa dualidade ficou ainda mais evidente durante a pandemia do Covid-19, quando as aulas presenciais foram suspensas e grande parte das escolas, tantos públicas quanto privadas, adotaram o método de aulas remotas.

Enquanto parte dos alunos do país estava tranquilamente lidando com a mudança, por ter todos os meios necessários para facilitar essa transição, outros sofriam pela mesma.

Principalmente em casas com mais de um aluno.

Sem computadores ou notebooks para acessar as aulas, muitas vezes com a internet e a eletricidade limitada. Famílias com diversas crianças com as aulas no mesmo horário e sem a possibilidade de acompanhar por falta de meios. Isso faz com que os alunos deixem de acompanhar as aulas, ficando para trás em seus estudos. Consequentemente, dá maior vantagem para aqueles privilegiados, que estão em dia com sua aprendizagem.

É importante mencionar as cotas ainda são uma grande discussão na sociedade. Sejam as cotas raciais, para indígenas, ou outros. Aqueles contra o sistema de cotas, normalmente os privilegiados, afirmam que este é descriminatório, que é fazendo essa “divisão” que o preconceito se mostra. Alguns dos argumentos que utilizam são o da meritocracia e de que existe a possibilidade de fraude. Enquanto os que defendem as cotas, pensam na inclusão, no leve aumento de oportunidade de ingresso em uma universidade.

No Brasil, negros e pardos representam em torno de 53,6% da população brasileira, e mesmo assim, apenas 12% da população preta e 13% da parda têm ensino superior.

Em 2015, uma pesquisa do IBGE mostrou que o salário da população preta e parda equivale a 59,2% do salário da população branca. Já em relação a mulher negra, segundo. PNAD (2014) seu salário equivale a 35% ao de um homem branco.

Em relação às mulheres como um todo, uma pesquisa realizada em 2020 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que as mulheres ganham, em média, 22% menos que os homens nas mesmas funções.

Já outra pesquisa realizada pela consultoria IDados, também no ano passado, mostra que a situação varia em cada Estado. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a remuneração das mulheres equivale a apenas 65,4% do salário dos homens.

Nesse sentido, podemos observar algumas das diversas faces do privilégio. O privilégio branco, o socioeconômico, e o de gênero.

A meritocracia não passa de um mito.

Não há como falar que existe meritocracia quando não nascemos iguais, quando não temos os mesmos recursos e nem as mesmas oportunidades ao decorrer de nossas vidas.

Dizer que trabalhando duro se alcança todos os seus objetivos, não levando em conta todo o contexto econômico e social onde a pessoa foi criada, nada mais é do que mais uma ilusão.

Com certeza, é importante batalhar e trabalhar duro para alcançar seus sonhos, mas não existe um manual padrão para todos os seres humanos.

É importante reconhecer seus privilégios e usá-los de forma a contribuir para a sociedade em vez de negar sua existência.

Que diferença você pode fazer usando-os?

Pare, pense, e reflita sobre os seus privilégios.

Marwa Termos – Militante dos Direitos Humanos e das Mulheres, graduada em Relações Internacionais.