Nos primeiros minutos de ‘’Nostalghia’’, já é possível que o espectador se localize diante das escolhas que Andrei Tarkovsky usará para se relacionar com o imaginário e sensorial individual. 

Acompanhando Andrei Gorchakov com sua tradutora Eugenia, adentramos em uma Itália construída visualmente na margem da solidão e imersa no sentimentalismo dividido e incerto acerca das noções de passado e futuro. Andrei se cativa com a presença de Domenico, um idoso considerado estranho por situações passadas, e entre esse contato, o leva a uma profunda viagem reflexiva sobre fé.

Tarkovsky escolhe como principais aliados para a linguagem: uma clara noção de presença no espaço; e o auxílio do tempo. Juntamente, esses dois elementos se intercalam para que exista uma absorção sentimentalista no que nos diz respeito ao se conectar com o interior de cada personagem e suas respectivas noções de mundo.

Os longos planos sequência nos ajudam a nos localizar no ambiente, captar os elementos individuais imagéticos representativos de cada um. Andrei e Domenico por exemplo são cercados pela água antes mesmo de terem seu primeiro contato direto, talvez assim nos dando uma representação de que o interior de ambos está mergulhado numa profunda individualidade pessoal.

Temos também no campo imagético dois mundos relativamente distintos. Por um lado, os monocromáticos campos da memória quase que de natureza indefinida, localizados em terrenos subjetivos remetendo até a possíveis sonhos e devaneios. Do outro, a suposta realidade vívida, que ainda sim apresenta estruturas incertas da realidade, dada a também incerteza de Andrei a respeito do que ele estaria vivendo ou desejando viver.

É nítida, portanto, que a execução dessa união do tempo elevando a capacidade do espaço de se expressar, cria toda uma cosmologia própria para aqueles personagens. É possível sentir a melancolia de Andrei sobre a sua falta de objetivo de vida, ao mesmo tempo que se entrelaça com os recorrentes fantasmas da nostalgia. O fogo também vem a ser um elemento importante na trajetória final dele e de Domenico, mostrando que ambos sucumbiram de maneiras diferentes na busca pela fé com uma esperança de redenção pessoal.

É de conhecimento hoje que Tarkovsky teve a dura escolha durante as filmagens de Nostalghia entre continuar com a liberdade criativa para seus filmes ou em seu país, levando-o para o Ocidente com sua esposa, tendo de deixar seu filho da União Soviética. Aliando isso aos seus escritos sobre o cinema ser um reflexo do mundo interior do cineasta, conseguimos traçar esse paralelo, dada a semelhança entre ele e Gorchakov nesse momento delicado da vida de ambos. 

Portanto, é de se admirar que Nostalghia consiga ser um reflexo de seu autor, ao mesmo tempo que a infinidade de possibilidades que adentra os lentos planos pode trazer a mil e uma correspondências pessoais. Afinal, a nostalgia nada mais é do que um sentimento que traz infinitas memórias diferentes. E que assim como ‘’Nostalghia’’, é um sentimento que é refém da passagem do tempo, podendo ser melancólico ou satisfatório, e até ambos ao mesmo tempo.

* Lucas Cavalcanti é estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila)