GATILHO: SUICÍDIO!

Todo ano, durante o mês de setembro, as redes sociais se superlotam de publicações em apoio ao Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio.

Mas você conhece sua origem?

Tudo começou nos Estados Unidos no ano de 1994, quando Mike Emme, de somente dezessete anos, cometeu suicídio. Conhecido como “Mustang Mike” por suas habilidades na restauração de um Mustang 68, cujo qual pintou de amarelo, o jovem possuía problemas psicológicos sérios não percebidos por aqueles ao seu redor, que os levaram a tirar sua própria vida.

Em seu velório, encheu-se uma cesta de cartões decorados de fitas amarelas com a mensagem “se você precisar, peça ajuda”. A partir de então, deu-se início a um movimento importante de prevenção ao suicídio, visto que os cartões chegaram realmente às mãos de pessoas que necessitavam de apoio.

Por isso do laço amarelo como símbolo dessa luta importantíssima.

A campanha é, de fato, extremamente importante, pois leva a conscientização das pessoas e, muitas vezes, ajuda aqueles que realmente precisam. 

Mas e nos outros onze meses do ano? 

Fevereiro, Abril, Junho, e Agosto. Foram nesses meses que eu tentei suicídio, que eu tentei tirar minha própria vida, e isso mencionando somente os anos 2020 e 2021. Foi necessária uma internação de quase quatro dias na tentativa mais recente.  

É importante ressaltar que durante todas as tentativas mencionadas acima eu estive recebendo apoio psiquiátrico e psicológico, além de completo apoio de familiares e amigos. 

Mas e aqueles que não tem apoio? Ou aqueles que não admitem que precisam de ajuda? Já pararam para imaginar quantas pessoas ao seu redor estão sofrendo em silêncio, com medo dos julgamentos e negligências? 

Isso ocorre, diversas vezes, porque não criamos um ambiente seguro para aqueles passando por problemas psicológicos pedirem ajuda. Não estamos constantemente reafirmando que está completamente tudo bem não estar bem. Não normalizamos a ideia de conversar com um profissional da área.

Durante meu breve internamento na ala psiquiátrica, conheci diversas outras pessoas que foram internadas pelo mesmo motivo que eu. O que eu percebi? Que o suicídio não escolhe gênero, idade, ou raça. Jovens da minha faixa de idade que creem que não há mais nada pelo qual viver, mulheres de idade com famílias que as negligenciam, mães e avós que recebem amor e apoio… não há uma regra. Infelizmente, somos todos vulneráveis ao suicídio.

Quando você passa vinte e quatro horas do seu dia em uma ala pequena, sem muito o que fazer para se entreter, você conversa com os outros. E muito. Altas lágrimas foram derrubadas. Mulheres muito mais velhas do que eu chorando com o apoio oferecido, com o fato de ter alguém para escutá-las e convencê-las que elas merecem melhor, que a vida delas é valiosa. Outra coisa que você percebe é que lá dentro somos todos normais, nos sentimos normais, não nos sentimos julgados, independente do motivo pelo qual estamos lá. Ajudamos uns aos outros. 

Na minha primeira noite, tive um ataque de pânico e os outros pacientes foram rápidos em reagir e me ajudar. No outro dia, era um deles que precisava de ajuda e eu estava lá, como eles estavam por mim. Em um determinado momento, durante uma de nossas longas conversas eu falei: “um de nós sempre vai estar mais estável, enquanto o outro vai estar menos estável. Quem estiver melhor em determinado momento vai ajudar o outro”.

E foi assim.

Fizemos combinados, trocas, para nos ajudar. Um dos pacientes estava com uma tosse que só piora por conta do cigarro (2 cigarros são permitidos durante os intervalos) e eu não comia a um bom tempo por falta de apetite. “Você vai fumar um cigarro em vez de dois”, eu disse à ele, e a resposta foi “só se você comer”.

Eu comi e ele fumou um cigarro só, exatamente como combinado.

É isso que precisamos aqui fora para não pararmos lá dentro: nos sentirmos normais com nossas doenças. 

Termos esse completo apoio.

Não queremos olhares feios ou de dó para as nossas cicatrizes. Não queremos que nos tratem como loucos ou desesperados por atenção. Não queremos perguntas estúpidas como “mas por que você se corta?” ou “mas por que você faz isso?”. Não queremos comentários como “isso é falta de Deus/Jesus” (inclusive, conheci algumas das pessoas mais religiosas durante minha internação). Não queremos ser tratados como crianças sensíveis que vão desabar a qualquer palavra.

Infelizmente, a saúde mental ainda é um grande tabu para muitos. Falar sobre a saúde mental, confessar que não está bem e que precisa de ajuda, admitir que toma medicamentos ou faz terapia, tudo isso continua a ser tratado como algo anormal. Ficamos com receio de chegar mesmo nas pessoas em que mais confiamos e dizer “estou tendo pensamentos suicidas”.

Comentários como “a vida não faz mais sentido pra mim” já é um alerta.

Algo importantíssimo que deve passar a ser evitado é quando uma pessoa te fala que não está bem, você responder com “mas ninguém está bem”. Por experiência própria, digo que isso só leva a pessoa a dar, não um passo, mas dez passos para trás e evitar mencionar o assunto para qualquer outra pessoa novamente, suprimindo sentimentos e emoções negativas que se acumulam e levam a decisões precipitadas e impulsivas. Até planejadas, muitas vezes. 

Segunda as últimas estimativas divulgadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no mês de junho deste ano, o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo. Em 2019, uma em cada 100 mortes foi por suicídio, totalizando mais de 700 mil pessoas que tiraram suas vidas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal. Esses dados tornam ainda mais importante promover ações de apoio e ajuda durante todo o ano, principalmente para os mais jovens. 

Nós desconsideramos as doenças psicológicas, tratando-as como “frescuras”. Ansiedade, Depressão, Transtorno de Personalidade Borderline, Transtorno Bipolar, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Esquizofrenia, Anorexia, e todas as outras doenças psicológicas são doenças sérias que necessitam de tratamento médico e psicológico, assim como as doenças físicas. Até porque as doenças mentais acabam atingindo diretamente a disposição física. 

É hora de começarmos a tratar as doenças que atingem nosso psicológico como algo normal. Quebrar esse tabu enorme que ainda existe. Tratar as pessoas com doenças psicológicas como quaisquer outras. Só assim seremos capazes de criar um espaço seguro para as pessoas procurarem a ajuda necessária para evitar o suicídio. 

Mande uma mensagem para aquele amigo que parece distante ultimamente, cheque seu colega de trabalho que anda improdutivo, ligue para aquele familiar que costumava estar mais presente. O suicídio pode atingir as pessoas mais próximas à você, quando você menos espera. Por isso, mostre à sua mãe, pai, irmãos, tios, avós, amigos, colegas e vizinhos que você está presente, que você se importa. Relembre-os sempre que possível o quão amados eles são. Mostre à eles que eles podem confiar em você e te procurar quando se sentirem mal, em vez de fazer algo contra eles.

E o mais importante: seja gentil (dentro e fora das redes sociais, todos os dias). As palavras, assim como as ações, tem efeitos, estes podendo ser negativos para alguém.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias: LIGUE 188!

Marwa Termos – Militante dos Direitos Humanos e das Mulheres, graduada em Relações Internacionais.