Gostaria de deixar essa reflexão sobre nossa cidade de hoje, que construímos até aqui, e do futuro, que poderemos construir depois da pandemia. Acredito muito que temos nas mãos a oportunidade de mudar os rumos e ir além de uma retomada, pensando num novo modelo de desenvolvimento para, ao invés de “retomar”, avançar, reinventar, inovar.

1- reinventar mobilidade urbana

Temos uma cidade absolutamente destinada ao carro individual, cortada por ruas e avenidas imponentes e com a supervalorização de obras destinadas também ao carro, que concentram recursos e em nada ajudam o meio ambiente e o direito à mobilidade. Precisamos investir pesadamente em transporte público, remodelar por completo nosso sistema e o utilizar como indutor de desenvolvimento, democratizar e baratear o acesso e interligar os ônibus a outras formas de deslocamento. Construir ciclovias, arrumar nossas calçadas, tornar o ambiente mais acessível e seguro para quem não pode ou mesmo não quer utilizar o carro particular. E precisamos compreender melhor o fenômeno dos carros por aplicativo e dos veículos compartilhados, para além de um “serviço”, garantindo estrutura de segurança e conforto para usuários e motoristas.

2- vencer o discurso anti-industrial

Foz pode e deve ter um parque industrial. Por muitos anos, essa ideia foi desqualificada ou diminuída por setores da cidade, marcada pelo preconceito quanto ao termo “indústria” e relacionado com um ambiente sujo, poluído e insalubre. Mas é sim possível se criar um ambiente de inovação e valorizar processos industriais de alta tecnologia, utilizando mão de obra local e gerando empregos de altos salários e qualificação. O setor leste da cidade tem todas as condições de receber empresas e fornecer boa parte da mão de obra necessária para esse processo. Além disso, uma indústria forte e inovadora não atrapalha outros setores – não há concorrência entre uma fábrica e o turismo, por exemplo – e ainda traria um incremento tributário importante à arrecadação municipal.

3- assumir a vocação educacional

Se somarmos o número de estudantes, professores e técnicos da Unila, Unioeste, IFPR, faculdades e centros universitários e de medicina no Paraguai (que moram em Foz), vamos perceber o tamanho do potencial que temos de mão de obra qualificada para o futuro e poderemos criar conceitos de qualidade de vida, consumo universitário e retenção de talentos para que possamos manter uma parcela significativa dessas pessoas na cidade. Além disso, é preciso se investir em campanhas informativas para os moradores sobre a importância da vida acadêmica na economia e no desenvolvimento social e humano, quebrando os preconceitos e aproximando a ciência e a tecnologia do cotidiano.

4- investir maciçamente na habitação

Por sua formação histórica, Foz do Iguaçu nunca priorizou um grande programa de habitação público e privado, por meio de financiamentos públicos, operações urbanas consorciadas e de planejamento urbano sustentável. As ações sempre foram pontuais e temporárias. É preciso se criar uma lógica urbana que alinhe meio ambiente, serviços, mobilidade e habitação, dando uso aos imóveis vazios em áreas de infraestrutura consolidada e priorizando moradias para mitigar os efeitos econômicos e sociais do déficit habitacional, que atinge desde grupos de baixa renda até setores da classe média. Hoje, os aluguéis consomem uma fatia importante da renda das famílias que resulta em concentração nas mãos de poucos especuladores. Esse dinheiro poderia estar circulando no comércio, por exemplo, dinamizando a economia e produzindo tributos para ampliar os investimentos públicos.

São 4 ideias mas que trariam reflexos em praticamente todas as áreas da cidade, ampliando a arrecadação de impostos para investimentos em educação básica, cultura, lazer, saúde e governança e melhoria na qualidade de vida em Foz do Iguaçu.

* Luiz é professor, gestor público e apresentador da Ràdio Band FM Foz do Iguaçu.