Apesar de Foz do Iguaçu ter uma economia voltada para o turismo, durante os últimos anos ocorreram diversas tentativas de aproveitar os recursos humanos das universidades instaladas aqui, entre elas as da incubadora do Parque Tecnológico Itaipu ( PTI ), porém podemos observar que o retorno não foi proporcional ao dinheiro investido. Isto pode levar a algumas pessoas a tentarem justificar que o estado não participe, o que seria um erro gravíssimo.

A culpa desses projetos não terem dado resultados se deve basicamente a uma filosofia equivocada, premissas erradas sobre desenvolvimento tecnológico e a políticas públicas totalmente desconexas da realidade. 

Continuam cometendo o mesmo erro de dar exclusividade a projetos que não envolvam linha de produção, e não apresentem muitos desafios fora das competências do desenvolvimento de softwares. E como dito em textos prévios, ainda tentam justificar isso baseado no princípio liberal de focar toda a economia naquilo “vantajoso” a priori, o que nos leva a casos similares da “doença holandesa” ou a crises em períodos como o que vivemos atualmente, com a redução dos números do turismo.

Fora esse problema, temos o gravíssimo problema do imediatismo baseado em uma filosofia norte americana de Start-ups, a administração se pauta em modelos desconexos da realidade brasileira, implementar palavras chiques em inglês não vai acelerar desenvolvimento algum… A realidade em Foz do Iguaçu e das universidades aqui é totalmente diferente da infraestrutura e suporte presentes no Vale do Silício, querer importar a metodologia deles aqui sem passar por um processo de desenvolvimento metodológico e filosófico seria um grande erro, que infelizmente continuam a cometer. 

Com isso, vou pontualmente colocar algumas pautas que deveriam ser discutidas pela classe política de Foz do Iguaçu e pelos quadros de recursos humanos das universidades locais e das classes com mais recursos.

1-A noção de indústria: Infelizmente aqui não se incentiva o surgimento de pequenas indústrias de tecnologia, apesar de termos grandes incubadoras de startups, as políticas municipais ainda estão na visão antiga de que resolver o problema industrial de Foz do Iguacu requer apoiar grandes indústrias ( que não vem se instalar em Foz ) 

E isso já parte do princípio equivocado para a aquisição de terrenos na zona industrial de Foz do Iguaçu, que requer um investimento pesado não apenas do terreno em si, mas da obrigação de construir um percentual elevado do terreno adquirido. Veja bem, o problema não está necessariamente nisso, mas sim no fato de que a zona industrial tem apenas essa política, uma política que inviabiliza a aquisição de terrenos na zona industrial por parte de projetos de pequenas e médias empresas que tentam se estabelecer na cidade, e que as principais vítimas desse processo acabam sendo os estudantes universitários querendo levar seus conhecimentos para fora na universidade e para o mercado.  

O ideal seria a disponibilidade de espaços de acordo com o zoneamento que estejam abertos a pequenas e médias empresas, a ideias do setor universitário, com o objetivo de estabelecer um razoável polo industrial de empresas de tecnologias que tenham parcerias com as universidades locais, permitindo assim um alto valor agregado em seus projetos e produtos, e ao mesmo tempo acolher os profissionais sendo formados na região. 

2-Linhas de crédito: Infelizmente, bancos de desenvolvimento como o BNDES não apresentam linhas de crédito para a aquisição de terrenos, logo em uma cidade universitária onde os estudantes universitários tenham vontade de abrir uma pequena empresa de tecnologia ou uma pequena indústria, o requisito de juntar R$ 500,000 para adquirir um terreno e construir uma estrutura de acordo com as normas de segurança estipuladas pelos bombeiros e órgãos responsáveis, se torna algo completamente desconexo da realidade.

E um endividamento de um valor tão alto como esse, se torna inviável para pequenas empresas que ainda não se estabeleceram no mercado, logo acontece o que tem acontecido desde muito tempo, as ideias não saem do papel, e a universidade não consegue cumprir o objetivo de industrializar a região.  

3-Infraestrutura: Outro problema gravíssimo se dá a uma mentalidade dicotômica no que tange a infraestrutura, ou se tem um espaço físico, ou se tem ferramentas e máquinas.

Infelizmente a mentalidade dos polos de incubadoras não levam em consideração a necessidade coletiva de diversas empresas de adquirir máquinas e operar as mesmas. Por exemplo, uma cortadora a laser se torna um investimento muito pesado para uma pequena empresa adquirir, mas a mesma consegue suprir a demanda de inúmeras pequenas empresas que se estabeleçam no local. 

A realidade que temos é que as incubadoras na cidade não se dão o trabalho de formular um espaço adequado com máquinas adequadas e com seus respectivos operadores, para auxiliar as pequenas empresas a se estabelecerem. E vai além disso, para não terem essa “responsabilidade” mudam o foco quase exclusivamente para softwares, afinal das contas é possível criar um software apenas com um computador, mas construir um carro não ( repito, construir. ) Isto nada mais é do que a fuga da responsabilidade de terem que projetar e fiscalizar um espaço com ferramentas e lidarem com projetos mais sofisticados. 

Com isso quero deixar claro que não existe demérito algum em softwares, o problema está na mentalidade de fugir das responsabilidades usando essas justificativas, minar o desenvolvimento industrial da cidade utilizando políticas públicas atrasadas e desconexas da realidade, e continuar gastando recurso esperando certos resultados enquanto se cometem os mesmos erros de sempre. 

Finalmente, qual seria a solução ideal para tudo isso ? 

Simples, um espaço que permita a instalação de diversas empresas de tecnologia de diferentes ramos, em um espaço acessível para o pequeno e médio empresário, e acessível para os estudantes das universidades locais. Ao mesmo tempo, tal espaço deveria estar de acordo com o zoneamento municipal, permitindo a instalação dessas empresas no local. 

Além disso, ter um espaço para infraestrutura, ferramentas e máquinas compartilhadas, com seus respectivos operadores. 

E o mais importante de tudo, ter a ambição de se tornar mais do que uma cidade turística em crise econômica, devemos ousar ter em nossa cidade uma referência de desenvolvimento tecnológico e produção científica. 

Um espaço com as características citadas acima, não apenas iria suprir a demanda das universidades locais e dos centros de formação técnica, como também iria gerar renda para a cidade, e abrir espaço para o projeto e engenharia reversa de diferentes produtos. 

* Matheus Müller Silva, acadêmico de engenharia química, músico e empresário.