Myanmar tem esse nome desde 1989, e destacadamente com a constituição de 2010. Antes, desde a independência do Reino Unido, se chamava Birmânia, tendo sido chamado de República Socialista da União da Birmânia por um período. O país que se tornou notícia pelo golpe militar que sofreu nas últimas semanas conviveu durante a maior parte de sua história com ditaduras militares.

Na década de 1990, como conta ao documentário “Como iniciar uma revolução”, Gene Sharp, um intelectual com amplo trabalho sobre luta não violenta, foi procurado para ajudar a propor estratégias para a superação do regime militar. Segundo ele, por não conhecer profundamente o país, o que pôde fazer foi produzir um compilado de lições, sendo 10 capítulos sobre poder político,  pontos fracos das dtaduras, como enfrentá-las com realismo, planejamento estratégico e mais. Além disso, se destaca uma listagem de 198 métodos de ação não violenta.

À época, o manual se espalhou por diferentes países. O documentário destaca a Sérvia, Egito e Síria, com participação de entrevistados destes países, mas Sharp lista uma longa série de países onde seu livro foi usado por movimentos populares que atingiram, de fato, a derrubada de regimes ditatoriais.

Os manifestantes gritam slogans e seguram faixas em frente à sede da ONU na terça-feira em Yangon, Mianmar, pedindo a libertação da líder deposto Aung San Suu Kyi. Hkun Lat/Getty Images. https://www.npr.org/2021/02/16/968350007/myanmars-coup-leaders-level-more-charges-against-ousted-leader-suu-kyi

No entanto, no capítulo 10 do livro, “Alicerces de uma democracia duradoura”, Sharp reconhece que após a desintegração de uma ditadura não há uma sociedade ideal, e se mantém os problemas políticos, econômicos e sociais, desafiando o novo sistema político a resolvê-los.Mas ainda ao cair da ditadura não está posta a democracia. Para Sharp é necessário fortalecer um novo regime, com uma constituição, com prerrogativas, com legitimidade, com um sistema federal e impedir que as forças armadas se tornem um risco à nova democracia.

Bem, o golpe militar de 2021 impõe um novo capítulo a essa história, porque de fato o sistema proposto existiu durante um determinado período de tempo. Os militares não saíram historicamente do governo, mas sim passaram a ser representados no legislativo. No entanto, as últimas eleições legislativas deram 83% dos cargos à Liga Nacional pela Democracia, que aprovaria um novo governo, segundo reportagem do G1, o que segundo os militares se deve a “enormes irregularidades”. Em resposta, os militares colocam no poder o general Min Aung Hlaing, que, no exército, empreendeu campanhas contra minorias shan, kokang e rohingyas.

Com o golpe e a prisão por posse de walkie-talkies de Aung San Suu Kyi, a líder anterior, ganhadora do prêmio Nobel da Paz por organizar protestos por eleições livres, tendo sido presa por anos por isso, Myanmar recebe a atenção de todo o Sistema Internacional. O portal Sputnik traz notícias de que Joe Biden anuncia sanções dos Estados Unidos contra os líderes militares de Mianmar, enquanto a Rússia diz ser contra tentativas de ‘fazer barulho’ em torno da situação em Mianmar. Isso se deve ao fato de que, nas Nações Unidas, hpa uma sessão especal do Conselho de Direitos Huumanos para discutir as implicações do golpe. A visão compartilhada por Rússia e China é de que o que aconteceu no país asiático é essencialmente uma questão interna. Ainda segundo a Sputnik, Venezuela e Biolorrússia também manifestaram dúvidas sobre a sessão.

Em tese, segundo os militares, haverão novas eleições, e o regime militar terá duração de um ano.

João Cararo é estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal da Integração Latino-Americana