A arma com mais alvos já criada

A simbologia é um ponto extremamente importante das relações entre pessoas, empresas, grupos políticos ou Estados. O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conta em seu livro “breves narrativas diplomáticas” que, para reuniões o IBAS, grupo onde o Brasil se encontrava com a Índia e África do Sul, para representar a igualdade entre as partes, exigiu que os colaboradores do Ministério produzissem uma mesa em formato de um triângulo equilátero.

No tema abordado pelo The Guardian, serve também de simbologia o impeachment contra Donald Trump mesmo após sua saída da presidência dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, os meios de comunicação enfatizaram a adesão do Partido dos Trabalhadores à derrotada frente ampla na câmara dos deputados, enquanto Erundina, a candidata da esquerda, não contava com o apoio do partido. Mas essa é uma arma mais antiga do que as redes sociais.

Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, algumas análises destacam a derrota da Alemanha Nazista e do Japão ainda antes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, mas a grande demonstração de poder destrutivo por parte dos Estados Unidos é tratada como o “ponto final” da guerra, destacando o país como o responsável pela vitória, independentemente do papel soviético na derrota do exército nazista.

Mais além, a indústria cinematográfica se torna dessa forma uma importante arma estadunidense em suas campanhas ao redor do globo. O heroísmo dos bravos americanos contra os vilões soviéticos, a bondade que torna Steven Rogers o soldado ideal para se tornar o Capitão América, a liderança da Casa Branca em filmes que colocam o presidente dos Estados Unidos diretamente no combate a terroristas, monstros ou alienígenas, ou mesmo o sonho das Highschools como no musical. Não à toa, Hollywood recebeu, destacadamente durante a Guerra Fria, investimentos pesados e atuação direta do Departamento de Estado (o mesmo responsável pelas relaçõex exteriores dos Estados Unidos) para se tornar a referência de cinema que todos conhecemos.

No campo das Relações Internacionais, há um importante conceito utilizado para falar dessa temática, que é o “Soft Power”. O poder brando é, basicamente, o poder exercido por meios que não sejam militares ou econômicos, muitas vezes coagindo um outro Estado a agir como se pretende baseando-se em outras formas de atuação, tendo em mente um sistema de interdependência entre as partes envolvidas.

A simbologia é uma importante arma em todo tipo de disputa. Sabem disso os Estados Unidos, também sabem os movimentos políticos que se apropriam de símbolos nacionais, como sabe o presidente que utiliza uma caneta Bic para assinar documentos em dissonância aos gastos com cartão corporativo, e também o seu adversário, ao permitir-se ser preso e aguardar anos pelo julgamento da suspeição de determinado juiz.

As simbologias estão por toda parte, e todos somos atingidos diariamente. Essa é a arma com mais alvos já criada.

João Cararo é estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal da Integração Latino-Americana