Nord Stream: Um espectro ronda a Europa, o espectro do gasoduto.

por João Cararo

O continente Europeu, do alto de suas potencialidades e necessidades tem uma marca importante: a dependência energética. Segundo a Eurostat, em 2018 58,2% da energia bruta disponível na União Europeia teve origem em fontes importadas. Essa é uma pauta antiga, é possível encontrar matéras do Deutsche Welle mostrando a busca europeia para a solução desse problema em 2006 (“Europa teme dependência no setor de energia”) e 2007 (“Especial: Energia na Europa”).

Uma das grandes medidas no setor é a construção dos dutos de gás chamados de Nord Stream (1 e 2) ligando a Rússia e seu grande potencial energético até o mercado europeu. A construção do primeiro gasoduto foi iniciada em 2010 e inaugurado por Angela Merkel (chanceler Alemã) e Dmitri Medvedev (presidente russo) em 2011. Na sequência, deveria ter sido iniciada a construção do segundo ramal ainda em 2011 para entrar em funcionamento ao final de 2012. Ao invés disso, apenas em 2017 foram assinados os acordos de financiamento e operações iniciaram no Mar Báltico em 2018.

Entre as dificuldades encontradas em um projeto do tamanho e relevância do Nord Stream, estão as sanções internacionais. Como forma de frear a influência e relações entre Rússia e União Europeia, os Estados Unidos não hesitaram em impor sanções aos países participantes do projeto. Notavelmente, a construção foi suspensa em dezembro de 2019 com a ameaça de sanções estadunidenses à Allseas, empresa suíça envolvida nas obras.

No entanto, não apenas as obras foram retomadas como um novo trecho do gasoduto foi concluído nas últimas semanas. Agora, faltam ser instalados os últimos quilômetros do duto, em obras previstas ainda para janeiro de 2021 em águas dinamarquesas. Uma das explicações para o fato, disponnível no portal Sputnik, é de que, devido à transição governamental estadunidense, não se pode impedir com sanções as obras.

Ainda em matéria da Sputnik, Waldemar Herdt, parlamentar alemão, destaca que uma rejeição ao Nord Stream 2 é “suicídio”, uma vez que as necessidades energéticas alemãs não são supridas em sua totalidade, destacadamente desde que se iniciou o fechamento gradual de usinas nucleares após o desastre de Fukushima no Japão.

Uma matéria do Politico.eu, portal europeu alegadamente apartidário, de 03 de janeiro alega, no entanto, que o Congresso dos Estados Unidos aprovou um conjunto de novas sanções às empresas que certifiquem, fornecam instalações, atualizações de equipamentos, seguro ou inspeção de embarcações envolvidos no projeto, dando às empresas 30 dias para se adequarem.

Segundo as páginas da Gazprom, empresa russa de energia e maior fornecedora de gás natural do mundo, os dois gasodutos juntos tem capacidade para transportar 55 blhões de metros cúbicos de gás por ano, sendo que o primeiro tem 1.224 quilômetros contra cerca de 1200 do segundo.

A Europa já é uma grande consumidora de gás natural e petróleo russos. No entanto, uma grande disputa em torno da construção do Nord Stream se dá em torno da influência e das relações de poder na região. Essas questões são centrais desde a reconstrução européia após a Segunda Guerra Mundial, parcialmente financiada pelos Estados Unidos como forma de firmar influência na região onde alguns países mostravam o que se pode chamar de disposição à experiências comunistas.

A Guerra Fria e o enfrentamento entre Estados Unidos e Rússia ou União Soviética se encerrou, mas a disputa por poder é algo que existiu antes, existe depois, e sempre continuará existindo nas Relações Internacionais.

João Cararo é estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal da Integração Latino-Americana.