Ainda que os Estados Unidos da América durante a história tenham apoiado diversos golpes de Estado e ditaduras, fomentado guerras e destruído países em nome de interesses nacionais, é viva no imaginário de muitos a imagem ordeira da terra da democracia. Essa imagem é ameaçada hoje porque dentro de suas fronteiras ocorre o que criaram em diversas regiões do mundo por décadas.

A conduta de Donald Trump em não aceitar o resultado das eleições presidenciais já lhe custou o apoio de boa parte de seu próprio partido, e um conflito com seu próprio vice, Mike Pence. A ocupação do capitólio em uma manifestação que deixou mortos e feridos lembra, vagamente, o início de um movimento pelo valor das passagens de ônibus que levou à um movimento golpista que rompeu a democracia brasileira. Após a ratificação da vitória de Joe Biden pelo congresso, Trump prometeu uma transição ordeira. Que a transição ocorrerá, é certo. Restam dúvidas se será ordeira, seja pelas atitudes do republicano ou dos seus apoiadores mobilizados.

Ao redor do mundo, todos os olhos se voltaram para a situação. A começar pela América Latina, onde o governo Maduro, da Venezuela, expressou preocupação com a violência dos atos em Washington, enquanto Bolsonaro afirma que se não houver voto impresso no Brasil em 2022, haverá problema pior que o dos Estados Unidos nesse momento. A declaração mostra um movimento golpista de um governo que parece ignorar o fato de que existe o voto no papel nos Estados Unidos, no qual o republicano foi derrotado.

Na Rússia, o senador Vladimir Dzhabarov declara que está minada a legitimidade do país americano como promotor da democracia, enquanto Leonid Slutsky, presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Duma de Estado vê uma Revolução Colorida aplicada no próprio país norte-americano.

O termo “Revoluções Coloridas” se refere à movimentos políticos que contaram com o planejamento, financiamento e/ou apoio dos Estados Unidos em países da antiga Iugoslávia e União Soviética, como forma de derrubar governos ligados à estes e legitimar regimes apoiados pelos Estados Unidos. Casos recentes podem ser vistos no Brasil do golpe contra Dilma Rousseff e na Bolívia do golpe contra Evo Morales, países importantes na região seja financeiramente ou politicamente mas também com destacadas reservas de petróleo – no caso brasileiro – e gás natural – no caso boliviano.

João Cararo é estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal da Integração Latino-Americana