A REAÇÃO GLOBAL À MORTE DE JOÃO ALBERTO

* João Cararo

​Há pouco tempo, o assassinato de George Floyd em Mineápolis, nos Estados Unidos, por policiais, gritando que não podia respirar, tomou telas, páginas e vozes de todo o mundo levantando um grande debate sobre racismo. Por semanas, assistimos, ouvimos e lemos sobre o racismo estrutural na sociedade estadounidense, assistimos aos protestos que se levantaram contra o acontecido e, na sequência, houve um novo silêncio. Nesse período de silêncio, como todos os dias, muitas vidas foram seifadas. Agora, mais uma vez o tema está no centro das atenções globais. Dessa vez, no Brasil.

​A morte de João Alberto e as reações à mesma levantam importantes reflexões. Novamente os meios de comunicação voltam a discutir o racismo estrutural, novamente os movimentos se levantam contra a violência racial, e com o passar dos dias, foram levantados discursos de que a vítima teria primeiro agredido os funcionários. Esse raciocício tem um grande problema: qualquer que seja o crime, a legislação brasileira não prevê a pena de morte. O que aconteceu foi um assassinato.

​Esse assassinato tomou proporções globais. O Washington Post dos Estados Unidos, o El País da Espanha, o Le Monde e o Le Parisien da França, o Público de Portugal, o La Repúbblica da Itália, o Clarín da Argentina e o Der Spiegel da Alemanha destacam: “Seguranças matam negro”. Também outras vozes que conscientes de seu alcance não poderiam se deixar calar sobre esta situação de injustiça se destacam, como Lewis Hamilton. O piloto se disse devastado ao ouvir a notícia.

​Nesse cenário, é importante destacar o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que nasce na comunidade afroamericana estadounidense em 2013 como hashtag, tomando as redes sociais com o debate sobre a violência policial vivida por essa população, mas que se espalha, descentralizado, sem corpo diretor, por diversas regiões do globo. O movimento se mantém através dos anos e chega ao Brasil porque encontra também aqui a mesma realidade. Encontrou na morte da menina Ágatha, na morte de João Pedro, na morte de Evaldo Rosa e agora João Alberto. 

​As redes sociais aceleraram o processo de develamento que as mídias iniciaram sobre o racismo e outras formas de violência.  Essas coisas não começaram a acontecer agora. Não há vitimismo. Só não há mais silêncio, sobre realidades cantadas há anos. Racionais que o digam.

​A sociedade internacional não recebeu bem a relação de Donald Trump com os movimentos supremacistas brancos, e também não recebe bem as declarações de Mourão e Bolsonaro, de que o racismo não existe no Brasil porque este é um país miscigenado. A população negra votou em peso em Joe Biden e selou o destino de Donald Trump. Acontecerá o mesmo no Brasil?

Essa é uma grande reflexão sobre o sistema internacional. Sabemos que muitas situações de injustiça, de horror, de tirania, de crimes que envergonham a humanidade, continuam a acontecer. Ao mesmo tempo, as vozes que gritam as injustiças do nosso país encontram eco em todo o mundo.

João Cararo é estudante de Relações Internacionais e Integração na Universidade Federal da Integração Latino-Americana