Às vezes deixo de manifestar-me não pela absoluta falta do que dizer, mas pela absoluta falta de vontade de dizê-lo. Me desculpem, mas hoje serei um pouco menos polida do que normalmente sou. Minha irritação deve-se ao fato de que não conseguimos estabelecer pautas conjuntas, que impactem positivamente os estudantes, que melhorem as condições de trabalho dos docentes. Muitas vezes limitamo-nos a meras repetições de receitas já fracassadas e inócuas.

Quando as aulas foram suspensas no mês de março, nós, educadores, não fomos consultados. Salvo grandessíssimo engano, acredito que, em havendo consulta, a maioria não concordaria com a suspensão. Assim, penso que a decisão sobre o retorno também não é nossa. Todos desejamos que a situação seja normalizada o mais rapidamente possível. Todavia, compete às autoridades sanitárias e ao poder público tal decisão, assim como o foi quando houve suspensão.

Dessa forma, as discussões entre os educadores não deveriam orbitar acerca do retorno nesse momento. As discussões deveriam ser sobre o que faremos quando as aulas retornarem. Felizmente, cientistas trabalham ininterruptamente para a descoberta de uma vacina. Entretanto, supondo, hipoteticamente, que em outubro tenhamos uma vacina segura e eficaz, que talvez permita o retorno às aulas, como será esse retorno? Considerando que não discutimos possibilidades, perdemos um tempo precioso que poderia ser utilizado para construções de propostas coletivas, que considerassem a inventividade, a criatividade e tivessem a participação efetiva de quem conhece sala de aula por atuar nela e não apenas pelo mero exercício da imaginação ou especulação.

Pois bem, eu sei exatamente o que vai ocorrer quando retornarmos. E não faço isso porque tenho capacidade de enxergar o futuro, mas porque conheço o discurso corrente. Como não houve flexibilização nas horas letivas, apenas nos dias, os alunos retornarão em turnos diários de cinco horas, iniciando, por exemplo, às 7:30 e terminando às 12:30. Quem estuda no período vespertino, poderá começar às 13:30 e concluir às 18:30. Do ponto de vista administrativo e legal, estará ótimo, crianças em salas de aula, com professores atendendo. Obviamente, haverá problemas nesse modelo, visto que as crianças ficaram (considerando provável retorno em outubro), ao menos 180 dias sem atividades rígidas, com carga horária delimitada. Obviamente, professores terão dificuldades com isso, mas as respostas já estão prontas e são bem conhecidas.

Sobre como desenvolver as propostas curriculares, o CNE trouxe um termo empolgante: continuum. Achei chique para falar a verdade. Talvez continuum seja mais adequado do que usar contínuo. Deve aproximar-se mais da linguagem jurídica, bem apropriada no caso. Então, professores, está fácil: consideremos 2021 como um continuum de 2020. Se essa explicação bem fundamentada e consistente não for suficiente, existe uma resposta já formulada, pronta, que resolve todos os problemas. Trata-se da famosa formação de professores. Quando surgirem dúvidas, os gestores, com a sempre sapiente imponência, decidirão que é preciso formação. Perfeito, retomam-se as velhas saídas para problemas novos. Os professores precisarão de formação continuada para atuarem com os alunos. Pois bem, quem serão os responsáveis pela formação? Pesquisadores que já estudaram sobre suspensão coletiva de aulas por 180 dias? Pesquisadores que já vivenciaram isso?

Entendamos, de uma vez por todas, que a formação precisará da participação direta, intensiva, permanente, também, de quem atua em sala de aula. Entendamos, de uma vez por todas, que esse retorno precisa ser planejado, pensado, remodelado, reorganizado, com a inventividade e criatividade que citei anteriormente. Mas, enquanto deveríamos discutir isso, perdemos tempo abordando questões sobre as quais não temos ingerência.

Joane Vilela é professora da Rede Municipal de Foz do Iguaçu e doutoranda da Unesp.