CINEMA: EFEITOS DESESPECIAIS

Certa vez, no meu curto período em um curso focado em animação, me deparei diversas vezes discutindo a simples pauta de ‘’efeitos especiais’’. A primeira situação foi em relação a uma edição (muito bem feita, por sinal) sobre a luta final de sabres de luz do filme Star Wars – A New Hope (1977), que substituía a versão original – com poucos planos engenhosos – por uma luta muito mais energética e tensa.

Com isso veio o questionamento, ‘’será que essa edição, por mais bem feita que tenha sido, se encaixa de maneira própria na obra final do jeito que estavam plantando na roda de conversa?’’. Ao meu ver, a impressão era a de uma colcha de retalhos que, além de tudo, ignorava o fator de documentação histórica.
Documentação essa que, principalmente ao se falar de Star Wars, deveria ser mantida e respeitada, vendo que foi o filme responsável pela criação do estúdio Industrial Light & Magic, várias vezes ganhador do Oscar e na ativa até hoje.

A equipe da ILM trabalhando com uma miniatura de uma ‘’Star Destroyer’’.

Porém, ao que parece, nem mesmos os proprietários dessas obras entendem esse valor. George Lucas (o diretor do primeiro filme e idealizador de Star Wars) por si só, até o ano de 2011, continuava fazendo alterações brutas nos filmes com efeitos especiais que não condiziam com o seu tempo. Começou com pequenas correções, até o momento em que ele decidiu incluir um número musical totalmente novo com criaturas digitais em um dos filmes… (e sem esquecer que o próprio Spielberg quase caiu nessa quando, em 2002, lançou em vídeo uma ‘’atualização’’ de ET, trocando o modelo marionete original por uma versão digital e…substituindo armas de policiais por walkie talkies em uma cena chave.)

George Lucas com todas as miniaturas e réplicas utilizadas no primeiro ‘’Star Wars’’, antes da sua obsessão por telas verdes e efeitos digitais.

Porém, se alterar obras não fosse o bastante, eles ainda privam o público de conhecer as versões originais. Sim, hoje em dia, a única maneira de se conseguir assistir às copias originais de cinema é apelar para downloads, onde fãs gastam seu precioso tempo editando e recuperando de mídias antigas essas versões destes filmes.

Um exemplo de alteração questionável, onde decidiram por trocar Sebastian Lewis Shaw por Hayden Christensen, para que houvesse mais sentido com a trilogia nova que estava saindo no início dos anos 2000.

Entramos aí em um campo perigoso, pois toda obra acaba por ser um documento de sua época. Então, por mais que um efeito especial esteja bom ou ruim 20 anos depois, ele inevitavelmente poderia ser melhor até um ano depois de seu lançamento original. Mas o que vale não é a sua qualidade, e sim a sua simbologia representativa como forma de arte.

Um exemplo também utilizado nessa mesma discussão foi sobre Toy Story (1995), que por já ser um filme de vinte e poucos anos, obviamente se encontra com a animação um tanto quanto datada em vários aspectos. E a vontade de muitos ali era ver esse mesmo filme refeito com a tecnologia atual.

Caso acontecesse, provavelmente seria um looping infinito, onde a cada 5 ou 10 anos, o mesmo filme seria refeito para a vontade de um público que não se contenta com entender a importância de também se preservar e admirar o ultrapassado.

Woody e Bo Peep em suas primeiras e últimas aparições, respectivamente.

Os efeitos especiais acompanham o cinema desde muitíssimo cedo, e com o tempo, inúmeras técnicas foram criadas para que essa sensação de fantasia fosse cada vez mais fácil de convencer o público. George Meliés, em 1902, já misturava stop motion, animação, truques de câmera, o uso de miniaturas (que Star Wars em 77 também utilizou) e iluminação, tudo para que essa magia deixasse queixos caírem.

Cena do filme ‘’Viagem à Lua’’ (1902)

E felizmente, nos anos seguintes, os cineastas aprenderam a visualizar esses efeitos e se questionarem ‘’onde posso ser mais inventivo em relação a isso?’’ e não ‘’onde eu posso aprimorar isso nessa mesma obra?’’, e vendo a evolução tamanha que tivemos desde 1902, fica claro que o ideal nessa área não é simplesmente correr atrás do próprio rabo…

George Lucas por si só já disse em uma entrevista que ‘’os filmes nunca estão prontos’’, deixando clara a sua posição sobre alterações posteriores. E com todo respeito ao George, ele não sabe em como está errado…

* Lucas Cavalcanti é estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila)