Quem escuta o que dizem as crianças sobre a quarentena?

Se outrora o tempo em casa era aquele alargado do fim de semana, marcado por passeios e brincadeiras, agora os dias dos pais e mães confundem-se com o trabalho e a realização de tarefas domésticas, ambos inadiáveis.

* Silvia Pandini

“ – Estou sufocada! Vou abrir um pouco essa casa, porque eu fico sufocada.” Foi com estas palavras que, às 21 horas de uma noite típica de inverno curitibano, C., 3 anos e meio, descreveu seu estado mental e corporal, depois de um dia de trabalho da mãe e do pai em que ela ficou à mercê das telas.

Não é sem o peso da culpa, sem as máculas das hesitações e dos arrependimentos que pais e mães recorrem às telas. Porque parece uma saída bem fácil, e de fato o é. Momentaneamente. Ou enquanto dura o período de captura que as telas exercem. Porque as crianças, como os adultos, ficam hipnotizadas frente às telas e seus apelos fáceis, seus barulhos estridentes, seus pop-ups desgovernados e sua mesmerização aterradora.

Mas, passado o fascínio inicial, os pequenos, sobrecarregados pelos ícones, estigmas e conteúdos que lhe foram impostos e que eles não dão conta de decodificar, devolvem aos adultos sua angústia e incompreensão em forma de irritabilidade, agitação, choro e negativas intermitentes aos pedidos paternos ou maternos.

Muitos de nossos pequenos também se viram, da noite para o dia, atônitos pela presença das telas e aparatos tecnológicos a seu dispor! Eu já ouvi muitas vezes a tirada em tom de barganha: “ah, então se você vai trabalhar eu vou mexer no tablet.”

Avessa que sou aos algoritmos que nos conduzem todos ao consumo das mesmas imagens, dos mesmos desenhos, dos mesmos livros e jogos, vi-me em total estranhamento diante dessa montanha de ofertas de gosto duvidoso nos supostos canais kids. Aqui cabe muito vagar e pesquisa, porque estudos tem mostrado a quantidade assombrosa de cliques recebidos diariamente por baby shark e galinha pintadinha – para ficar em apenas dois exemplos.

Como podemos nutrir o repertório imagético, estético, cultural e de leitura de mundo de nossas crianças? De que forma geraremos pensamentos divergentes se todos nós, em um único clique, estamos acessando e consumindo os mesmos conteúdos e povoando o imaginário infantil com as mesmas frágeis e empobrecidas referências. Este tema tão importante tem sido discutido em artigos acerca da mesmerização das crianças, imposta pelo consumo de artigos de entretenimento, vestimenta, alimentação, cultura ligada à infância.

O item entretenimento é um capítulo vasto e urgente. Ninguém parece disposto, menos ainda os adultos, a lidarem com os vazios. E a mídia é implacável em nos encher de pixel e som. A ausência de um tempo vivido e desfrutado na escola trouxe certamente uma ou muitas faltas à rotina, mas aqui estamos querendo nos referir ao vazio próprio do enigma, da pergunta, da curiosidade diante de alguma faceta do mundo. Dado que as telas, e seus conteúdos pautados no entretenimento e na excitação que obliteram os sentidos, não conseguem provocar.

A reclusão traz consigo a sensação de aprisionamento, medo de estar à rua, saudades ampliadas dos amigos e sobretudo corpinhos flácidos. Como serão as descidas ao quintal da escola, como serão os passeios pelas trilhas, como serão as caminhadas das crianças, elas que são os maiores caminhantes da contemporaneidade?

A ausência dos amigos com quem partilhar os dias, rivalizar nas disputas, opor-se no momento do jogo de faz-de-conta e lastimar as dores de um machucado, faz da mãe, do pai, ou de qualquer boneco, um portador de anseios e importantes representantes desses outros com os quais a criança não mais se depara.

“-Mamãe, lê o meu livro para mim? De quando eu ‘ero’ da turma da Lagarta?” Com este apelo cheio de saudades, A., também de 3 anos, pede à mãe que folheie o Caderno de Vivências organizado pela escola no ano anterior. Enquanto liam novamente os pequenos relatos de um tempo vivido, ele diz: -“ Olha mamãe, esse é o B., ele nunca queria emprestar os brinquedos… Mas eu tô com tanta saudades dele.” E ao terminar de dizer isso, o choro de pais e filhos é inevitável. Um choro saudoso e amargo como nunca. O irmão mais velho tenta consolar o menor e dizer-lhe que loguinho estarão brincando pelos bosques da escola… E os adultos tem tempo de enxugar as lágrimas e pensar em alguma palavra de conforto que possa ser entregue com sinceridade às crianças.

A acolhida da família, quando possível, é estruturante para as crianças. E elas retribuem com mais abraços apertados, dizendo mais vezes que amam, nomeando a falta que sentem dos amigos e da escola, verbalizando suas saudades quando um dos cônjuges está ilhado no trabalho em casa, ainda que a distância que os separe seja de uma parede.

O fato de os pais e mães agora trabalharem em modo remoto, dentro de seus lares, gera nas crianças um entendimento ambíguo do que sejam as horas em casa e em família. Se outrora o tempo em casa era aquele alargado do fim de semana, marcado por passeios e brincadeiras, agora os dias dos pais e mães confundem-se com o trabalho e a realização de tarefas domésticas, ambos inadiáveis. Se antes o pacto social nos permitia ter a escola como grande parceira na acolhida e zelo pelos tempos da infância, agora adultos e crianças, tais quais malabaristas, dão cambalhotas e piruetas e tentam equilibrar os tempos e espaços da vida em casa. Contudo, as crianças, que não vivem de tomaras, como disse Catherine L’Ecuyer, querem saber de nós, quando afinal iremos brincar? E nos solapam a alma, lançando-nos verdades como:

“- Mas você só fica andando de um lado para o outro da casa!”
“- Mãe, porque você não para?”
“- Mamãe, agora eu vou desligar você, com esse ‘controlio’!”
“- Você não disse que ia brincar comigo? Você me deixou sozinha de novo?
“-Mãe, para de mexer nesse celular.”
“- Oh! Agora você brinca que eu vou trabalhar no meu celular!”

Há enigmas de sobra e eles nos colocam, ou ao menos deveriam nos convocar a estar, em permanente estado de busca!

Enquanto adultos, pululam em nós dúvidas insistentes: como estaremos, nós os adultos, nós os profissionais, nós os professores, após esse período tão longo, tempestuoso e aflitivo? Que ações de cuidado e que tramas de ternura e aconchego tem nos aninhado em casa nesses dias?

Quando foi a última vez que o cansaço não fez pais e mães sucumbirem junto e antes da hora de fazer as crianças dormirem e permitiu-lhes a intimidade e a privacidade para afetos expandidos?

De outro lado, do lugar de quem pesquisa a infância, indagamo-nos: como as crianças estão vivendo esse período? Que espaços lhes tem sido oferecidos para dizerem de si e do que lhes aflige? Será que nós adultos estamos apenas exercendo um governo da infância ou temos tido traquejo e escuta sensível para acolhê-las? De que maneiras a casa pode ser uma espaço potente para as buscas infantis e ninho tranquilizador onde elas possam viver seus dilemas? E a morte que nos ronda, como elas a interpretam?

É importante respirarmos um pouco mais e acolhermos todos os tipos de lutos e nas crianças eles são tantos. A dor da ausência, a perda da sala e dos espaços de referência, a privação dos parceiros de buscas e desavenças, a suspensão das tarefas corriqueiras, o adiamento dos momentos ritualísticos dos lanches e refeições compartilhadas, a impossibilidade de circulação sobre a cidade e o embrenhar-se em suas paisagens, o imiscuir-se nos bosques e quintais e ser parte deles, a privação de um tempo diante de um espaço e ambiente difuso como o da natureza.

Suponho que, como pais e mães, observando atentamente as crianças e ouvindo-as possamos ressignificar o que elas viviam na escola, na companhia dos pares, em seu mundo íntimo e distanciado da família.

Como educadores atuantes na educação infantil, não fugiremos a questões como: quais serão os papeis da educação infantil nesse momento de reclusão e após o encerramento do período em casa? E quais serão os lugares que os professores estamos ocupando e ocuparemos nessa grande roda viva?

Eu aposto em nossos papeis de sujeitos tomados pela perplexidade.

Perplexidade diante da morte, da doença e do escárnio!

Perplexidade diante da vulnerabilidade da vida humana.

Perplexidade diante dos abismos sociais, do preconceito de raça, cor e gênero, do governo que escolhe quem deixará morrer e virar estatística.

Mas não somente a perplexidade como normalmente nos é apresentada, aquela que nos paralisa. Vamos tomar a perplexidade na acepção de espanto, de enigma, de ímpeto de realizar um movimento sanador e apaziguador de estados de alma dilacerada.

Perplexidade diante da potência das crianças de se mostrarem capazes de viver uma outra rotina e também notarem nosso choro disfarçado e oferecem-nos consolo com palavras tão ternas quanto seus dedinhos: “ – Mamãe, não fica tão triste assim”.

Perplexidade diante de tudo que fomos capazes de aprender! E ainda, perplexidade diante da vida que se reinventa e nos convida a aprender de novo, algo novo. E a envelhecer cada dia um pouquinho com a sensação de que podemos inventar novidades e recriar a realidade!

Seguimos juntas e juntos!

Silvia Pandini é mestre em educação, pedagoga e atelierista. Ocupa-se de hospedar palavras e pensamentos e fazer das infâncias um bom lugar para as crianças.