Por Bruno Zanette*

O esporte parou no mundo inteiro, por conta da pandemia do novo coronavírus. Diferentes modalidades tiveram suas competições suspensas, canceladas ou adiadas. Até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio passaram de 2020 para 2021, conforme já comentamos aqui https://sp6.com.br/2020/04/01/impactos-do-coronavirus-no-esporte/.

Com isso, emissoras de TV, e até mesmo de rádio, que têm em suas grades de programação a transmissão ao vivo de eventos esportivos, ficaram com um grande buraco para preencher. A solução encontrada pode parecer estranha e divide opiniões: reprisar momentos marcantes do esporte brasileiro, especialmente títulos da seleção brasileira de futebol. Mas, também há de outras categorias como Fórmula 1, vôlei, basquete, tênis. Depende da emissora.

Estranho imaginar que em tempos de YouTube, a maior biblioteca de vídeos do mundo, com boa parte desses eventos registrados na íntegra por internautas saudosistas, a reprise de partidas e corridas, com resultados conhecidos pela grande maioria do público possa ainda atrair interessados. Mesmo assim, os índices de audiência registrados impressionam. Às 18h17 de domingo (26), após a reprise do tetracampeonato mundial de 94 do Brasil, a Globo registrava 18,5 pontos na liderança da audiência, segundo o perfil @ibope_TV, no Twitter. O SBT aparecia em segundo, com 7,8.

Boa parte ainda gosta de assistir mesmo é na TV. E tem um fator interessante. As novas gerações, que preferem passar o tempo na internet assistindo aos vídeos dos canais de seus “youtubers” preferidos, só conhecem tais histórias do esporte pelo que seus pais, tios ou amigos contaram. Não presenciaram e nem assistiram ao vivo e a cores. Os pais que lutem para tirar as várias dúvidas dos filhos, durante as partidas.

Enquanto a Globo prefere focar no ufanismo patriótico, reexibindo títulos da seleção brasileira de futebol e, a partir de domingo (3), corridas de F1, especialmente as de Ayrton Senna, outras emissoras focam em clubes brasileiros, como o caso da Bandeirantes, que já passou Palmeiras x Corinthians dos anos 90, Mundial do São Paulo em 92 contra o Barcelona, título brasileiro do Corinthians em 98, diante do Cruzeiro. Algumas emissoras de rádio, com um perfil mais regional, retransmitiram na íntegra e com áudio original, jogos de seus clubes locais. Foi o caso da Guaíba, de Porto Alegre, disponibilizando as transmissões de Grêmio 2 x 1 Hamburgo (Mundial 83) e Internacional 1 x 0 Cruzeiro (Final do Brasileiro de 1975), ambas narradas por Armindo Antônio Ranzolin.

Fiz uma simples pesquisa nas minhas redes sociais, para medir o equilíbrio dos que gostam e para aqueles que não faz diferença, e preferem não assistir. Os que não gostam, usam como argumento justamente o fato de já saberem o que acontece, não ter a graça do imprevisto do esporte. Houve quem sugerisse exibição de novos filmes, o que também é interessante. Já aqueles que curtem são, talvez, saudosistas assim como eu, que sentem prazer em reviver esses momentos, voltar às lembranças do passado, de uma época em que dava gosto de torcer pela seleção da CBF. Teve quem disse ter se emocionado de novo, ido às lágrimas mesmo, como se aquilo fosse a primeira vez. Algo que só o esporte é capaz de proporcionar.

Mas, de todos os comentários dos que participaram – e que agradeço de montão, por contribuírem com o texto – um que eu gostei foi o que citou o futebol como “recurso de distração de massas”. Sabendo do interesse do brasileiro pelo esporte mais popular do planeta, essa acabou se tornando uma medida simples, barata e que ainda consegue manter seus colaboradores seguros em casa. Tanto que apenas um apresentador abre a jornada do estúdio, interage com outros participantes via streaming, e o resto é com o videotaipe.

Enquanto as competições inéditas seguem impossibilitadas de voltar, para preservar a saúde e bem-estar de todos, que as emissoras não economizem nas reprises e sigam nos entretendo com emoções do passado, mas ainda capazes de despertar certos sentimentos em boa parte dos amantes do esporte.

*Bruno Zanette é jornalista formado em Foz do Iguaçu e se dedica a falar e escrever sobre esportes desde que nasceu, em 1989. Profissionalmente desde 2008. Também aprecia cultura de um modo geral.