opinião: A Crise Econômica vai matar mais que o Coronavírus?

Na última semana, através de falas do Presidente, de alguns ministros, empresários e pseudo-economistas tem circulado um argumento de que se a população continuar em quarentena, a crise que virá levará a morte de um número muito maior de pessoas do que o covid-19. Jovem pesquisadora que sou, decidi buscar dados, porque são eles que devem fundamentar nossos argumentos.

Cheguei ao artigo “Life and death during the Great Depression”, do Prof. José Granados do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Michigan com a Profª. Ana Roux, do Centro de Epidemiologia Social e Saúde da População, da mesma Universidade.

Escrito em 2009, o artigo examina a evolução dos indicadores de saúde nos EUA durante a Grande Depressão (considerada a maior recessão do século XX).

Para se ter noção da magnitude da crise, iniciada com o crash da Bolsa de NY em 1929, entre 29 e 30 o “crescimento” do PIB norte-americano foi de -9%. No ano seguinte o encolhimento (ou “crescimento negativo”) foi de 6,5% e no posterior de 14%. As taxas de desemprego do período ultrapassaram 20% em alguns anos.

Entretanto, a respeito da mortalidade, os dados mostram que: “As recessões de 1921,1930-1933 e 1938 coincidiram com declínios na mortalidade e ganhos na expectativa de vida. A única exceção foi a mortalidade por suicídio, que aumentou durante a Grande Depressão, mas foi responsável por menos de 2% das mortes. As análises de correlação e regressão confirmaram um efeito negativo significativo das expansões econômicas nos ganhos em saúde.”

Sofisticando o argumento algebricamente, os dados foram colocados em um modelo de regressão que teve como resultado uma correlação NEGATIVA entre melhorias na saúde e crescimento do PIB e POSITIVA entre o aumento da taxa de desemprego com a melhora de saúde. Para os mais curiosos, os motivos para a piora de saúde em períodos de crescimento estão citados no artigo e não cabem a discussão desse post.

Por fim, os autores ainda citam uma segunda pesquisa, que analisa os efeitos potenciais do stress da Grande Depressão no útero das mães, com a hipótese de possíveis doenças posteriores no bebê: Não foi encontrada ASSOCIAÇÃO ALGUMA.

Desta forma, mesmo que deixássemos de lado a humanidade, mesmo que fôssemos completamente insensíveis as vidas serem perdidas, mesmo que adotássemos o princípio utilitarista de “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”, mesmo que vidas não fossem vidas, mesmo que tudo pudesse se resumir à números: o argumento ainda estaria incorreto. Crise econômica alguma expande a mortalidade de modo que possa ser comparada com a expectativa de infectados e mortos com o coronavírus.

De fato, existirão consequências econômicas e sociais. Pobres ficarão mais pobres, o desemprego irá subir e a fome aumentar. Mas tudo isso pode, e deve, ser amenizado por políticas econômicas estatais. Já a vida: ela é inestimável e deve ser a prioridade agora. Cogitar algo diferente disto é além de desumano, é ilógico.

Bibliografia e fonte da imagem: https://www.pnas.org/content/pnas/106/41/17290.full.pdf

* Juliana Santos Oliveira é Graduanda em Ciências Econômicas na Universidade Federal do ABC, Pesquisadora na área de Democracia, Desenvolvimento e Desigualdade

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